Episódio 1: Coração Puro

Houve um rei que habitou em Eldraine, um bom rei, que tinha ao seu lado uma boa rainha. Juntos, eles tiveram quatro bons filhos, e aqueles que viviam dentro do reino viviam felizes, sabendo que permaneceriam em boas mãos pelas gerações vindouras.

Mas o bom rei está morto — assassinado defendendo sua família até o fim — e a rainha está morta também. Todas as suas superstições, todas as suas proteções, toda a sua bondade não significaram nada diante da invasão phyrexiana. As gerações que deveriam ter vivido em paz agora jazem em valas comuns sob charnecas e prados revolvidos.

Os cavaleiros que repeliram a invasão — tanto aqueles que se tornaram mercenários quanto os que ainda se apegam ao valor — chamam Will de o Rei Menino. E, não importa o quanto ela deseje que fosse de outra forma, Rowan não pode culpá-los.

A cavaleira que eles vieram ver oferece uma comparação fácil. Mossas e rasgos marcam sua armadura, contando a história de seu valor tão certamente quanto letras em uma página. Seu belo rosto é prateado por cicatrizes ganhas em serviço valente. Somente o martelo dela tem quase o tamanho de Will. O braço que ela perdeu na luta contra os phyrexianos foi substituído por madeira encantada — um presente do povo feérico que levanta tantas perguntas quanto responde.

E há muitas perguntas em torno dessa mulher. Nos últimos seis meses, ela tem exigido tributos de aldeias próximas em troca de seus serviços para afugentar "saqueadores". Mas os saqueadores em questão, bem, eles sempre parecem usar as cores dela. Apesar disso, o povo da cidade tem afeição por ela — e é essa afeição que levou Will a procurá-la para um parlamento.

"Syr Imodane", diz Will. Ele inclina a cabeça, oferecendo a mão à cavaleira. "Saudações a você. Gostaria de agradecer por me receber entre você e os seus."

A cavaleira não se move de seu trono improvisado. Diz a lenda que ela o fabricou com os corpos de phyrexianos mortos — e certamente parecia isso, todo feito de ângulos e bordas afiadas. Ela se senta com uma perna cruzada sobre o colo, os olhos semicerrados para Will.

"Rainha Imodane", diz ela.

"Ah, uma rainha. Então podemos fazer acordos como iguais", diz Will. Ele oferece um sorriso amigável, embora Rowan possa ver as rachaduras em sua máscara.

Os cavaleiros de Imodane riem. Ela também ri, seus ombros subindo e descendo. "Oh, já passamos da fase de conversar, Rei Menino. A única razão pela qual concordei com esta pequena reunião foi para ver se você era tão patético quanto ouvi dizer. Você é."

"Cuidado com o seu —" Rowan começa, mas Will levanta a mão para interrompê-la. A raiva ferve no fundo de seu estômago.

O sorriso do irmão dela nunca abandona seu rosto por completo. "Patético, é isso que você pensa de mim?"

"Você não me deu motivos para pensar o contrário", diz Imodane. "Onde você estava durante a Invasão? Certamente não no campo de batalha."

"Cuidado com a língua", Rowan interrompe. Eles podem não ter estado no campo, mas lutaram suas próprias batalhas dentro do castelo.

Will faz um gesto para que ela se cale. "Então, que tal um duelo? Se eu lhe der motivos para pensar o contrário, você se ajoelha. Chega de saques, chega de fingir ser a dona do trono. Em honra ao seu serviço à coroa, você pode permanecer como uma de nossas vassalas e campeãs, desde que aja adequadamente."

A calma dele só deixa Rowan mais furiosa. O poder formiga em seu sangue. Ela flexiona os dedos, da palma para o punho, da palma para o punho, tentando enterrar seus sentimentos.

Imodane coça uma das cicatrizes ao longo de sua mandíbula. "E se eu vencer?"

Will aponta para os arautos atrás deles. Ela sabe o que ele vai dizer, e já odeia que ele vá dizer isso. "Eu e os meus seguiremos você, em vez disso. Entregarei a coroa de Eldraine. Você será a Grã-Rainha em nome e de fato."

Ele não a consultou sobre isso. Se tivesse feito, ela teria lhe dito o quão tolo isso era. Will conseguia se defender em algumas lutas, com certeza. Mas contra uma mulher como Imodane, ele tinha tanta chance quanto uma formiga diante de um leão. A mãe deles poderia ter feito isso, até mesmo o pai — mas Will?

"Deixe-me fazer isso", sussurra ela para o irmão. "Eu consigo lidar com ela."

"Eu ficarei bem", diz Will.

"O martelo dela é maior do que você. Will, por favor. Não há necessidade de mais de nós nos machucarmos."

Ela lhe concederá uma coisa — o olhar dele tem mais firmeza do que tinha há alguns meses. "Se isso nos trouxer estabilidade, não me importo em derramar meu próprio sangue", diz ele. "Além disso, ela vai mudar de ideia quando perceber que eu não recuo de uma luta."

Você perderá mais do que seu sangue se fizer isso.

Ela não respeitará você se o vir quebrado diante dela.

Estou bem aqui, por que você não confia em mim?

A morte está densa no ar de Eldraine; os laços familiares a mantêm no lugar. Ela não pode fazer seu irmão de bobo. Não em um lugar tão público quanto este. Além disso, ele tem treinado incansavelmente todas as manhãs. Ele percorreu um longo caminho desde o menino desajeitado que ela conheceu um dia.

Uma cavaleira saqueadora como Imodane tem terras limpas para batalhas. De que outra forma seus subordinados poderiam descarregar sua raiva entre as campanhas? A grama aqui está bem gasta, a terra compactada embaixo. De um lado, os rebeldes de Imodane estão sentados encarando-os em suas armaduras improvisadas. Nada os une, exceto a fé em Imodane e, no entanto, para ela eles parecem mais felizes do que seus próprios irmãos e irmãs de armas. Os cavaleiros de Ardenvale podem usar tecidos mais finos, sim, e têm um lugar para dormir quando muitos não têm — mas sua fé e lealdade pertenciam ao antigo rei.

O Bom Rei.

Rowan respira fundo.

O irmão dela toma seu lugar.

Um corneteiro soa a buzina.

Arte de: Chris Rahn

Há muito tempo os cavaleiros se enfrentam em campos de batalha e campos de glória. Tantas de suas memórias a mostram pulando no colo do pai enquanto os observava, fazendo perguntas sobre tudo o que via, afirmando com confiança perfeita que um dia estaria entre eles. O pai dela sempre lhe assegurou que ela estava certa. Quando finalmente ela participou de uma justa pela primeira vez, sua alegria acendeu uma faísca nos corações de toda a sua família e, assim, como gravetos ao fogo, tornou-se mais forte.

Phyrexia tirou isso dela.

Agora, quando ela observa Will assumir uma postura de combate, ela vê o rosto do pai deles sombreando o dele. Imodane torna-se uma monstruosidade farpada empenhada em destruição.

Rowan aperta o cabo da espada. Ela tenta se ancorar no momento presente através de seu peso, através da sensação do couro contra seus dedos. Vai ficar tudo bem. Desta vez não é aquela vez.

Imodane faz o primeiro movimento, correndo em direção a Will com seu grande martelo a reboque. Rowan estremece — mas Will tem isso sob controle. Ele atinge o chão com gelo, deixando-o escorregadio. O ímpeto de Imodane a leva a um tombo feio. Incapaz de se recuperar, ela cai de cara no gelo. Até mesmo seus rebeldes não conseguem conter o riso.

Qualquer esperança que tivessem de um duelo honroso desapareceu. Imodane não aceita bem ser feita de boba.

Chamas irrompem da cabeça de seu martelo. O gelo que cobria o campo derrete, com o solo sedento absorvendo a parca umidade com gosto. Imodane se levanta e — com um braço poderoso — balança o martelo acima da cabeça.

Will consegue evitar o golpe destruidor, mas por pouco, jogando-se para o lado. O movimento de um completo e absoluto novato: ele não consegue recuperar o equilíbrio antes que ele também caia no chão.

E Imodane consegue erguer seu martelo mais rápido do que Will consegue se levantar.

A garganta de Rowan aperta. O medo a imobiliza no lugar. Cada segundo de indecisão a queima por dentro.

Ela odeia isso. Não é quem ela é.

Ela não permitirá que seja.

Toda a raiva que ela sentira então, assistindo o pai morrer, toda a tristeza que sentira depois — como corrente através de um fio, ela as deixa percorrerem seu corpo, sem impedimentos.

Mas há algo mais vindo junto com a raiva e a tristeza. Algo novo e terrível. Rowan não o conhece, mas como veneno ele percorre suas veias, incendiando-a.

Chamar o que sai da ponta de seus dedos de um raio é como chamar um caldeirão de dedal. Os próprios céus tremem diante da visão; nuvens escuras recuam para permitir a carga real do rei dos elementos. No momento em que o estrondo do trovão os coloca todos de joelhos, já haviam se passado cinco segundos inteiros.

Somente quando a poeira baixa ela percebe o que fez.

Arte de: Alexandr Leskinen

Daqui a gerações, eles chamarão este lugar de Montanha Corta-tempestades. Com um raio como lâmina, Rowan cortou uma fenda enorme na encosta do pico mais próximo. Gigantes não poderiam esperar igualar tal feito, por mais que tentassem.

As pontas de seus dedos formigam, seu coração salta no peito. Ela encara a própria mão e a fenda imensa, em descrença. Um poder assim não existe. Onde ela o havia encontrado?

"Rowan?" Will parece horrorizado. E sua aparência também é essa. Até Imodane empalideceu de terror. O jeito que ela olha para ela é o jeito que as pessoas olhavam para ...

Eles têm medo dela?

A língua de Rowan gruda no céu da boca. Ela não consegue pensar em nada para dizer, então ela se mantém empertigada. Se ela alcançar sua espada, ainda projetará poder —

Mas no momento em que ela faz o gesto, Imodane larga o martelo, dá meia-volta e foge. A floresta a engole antes que qualquer um dos dois pudesse pensar em como detê-la.

Isso não é totalmente verdade. Will poderia ter feito algo. Um único raio de gelo teria bastado, mas ele permanece no chão, olhando para Rowan. Mesmo quando ela o ajuda a se levantar, ele nunca desvia os olhos dela. "O que você fez?", ele pergunta a ela.

Ela não está pronta para responder a isso. "Você deveria ter me deixado lutar. Você nunca deveria ter feito isso sozinho; você sabe que não tem o treinamento —"

Olhos em suas costas. Espadas desembainhadas atrás deles. Seus sentidos de guerreira estão alertas. Imodane pode ter fugido, mas seus rebeldes não. E sem nenhuma direção clara, todos eles estão procurando uma chance de ganhar fama.

"Podemos conversar sobre isso mais tarde", diz ela. "Quando estivermos fora desta confusão."

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Houve uma vez uma cavaleira boa e nobre que serviu no Castelo de Embereth com seus companheiros, que bebia profundamente o vinho das festas e se vangloriava tão alto quanto qualquer homem poderia. Tinha braços fortes, mas um coração ainda mais forte.

Essa mulher morreu meses atrás. Imodane é tudo o que resta.

Ela corre, com o medo dando-lhe pés velozes, através dos densos arbustos e sobre galhos caídos.

Mas as coisas são assim: sempre que se foge do passado, deve-se observar cuidadosamente o futuro.

Imodane não o faz. Nem percebe o que aconteceu até que seu pé pisa, além de todo pensamento e razão, em pedra fria.

Pedra talhada no meio das terras selvagens.

A lucidez retorna. Com a espinha tremendo, ela olha ao redor pelo que parece ser a primeira vez.

Onde quer que ela esteja, a floresta desapareceu. Para dentro de um palácio ela vagou, uma sala de trono cintilante e diáfana. Música em tons estranhos seduz seus ouvidos; ela sente cheiro de vinho, frutas maduras e perfume. Ao redor, a paisagem muda tão facilmente quanto a música — paredes tornam-se janelas para um reino de abundância; janelas tornam-se portas para quem sabe onde. Se tentasse, ela achava que poderia ver através das estruturas enevoadas, mas não queria tentar. Há coisas que os mortais ainda não foram destinados a saber. Embora o trono diante dela estivesse envolto em sombras, ela soube ao vê-lo onde deveria ter ido parar.

Imodane cai de joelhos. "Perdoe-me, Vossa Majestade, não tive intenção de invadir."

Dois olhos, dourados como hidromel, brilham na escuridão. "Não há necessidade de desculpas. Você foi convocada. "

Ela deseja responder — mas a visão desse soberano delicado a roubou de todo sentido.

Uma risada suave e cruel acaricia suas bochechas. "Pretendente a Rainha. Aventureira outrora corajosa. Diga-me... " A mão do lorde feérico envolve o queixo de Imodane, inclinando seu rosto para cima. "Você tem um coração puro?"

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Há uma aldeia longe de tudo isso.

Ela fica em uma extremidade do Reino tão remota que, na vida cotidiana, os nomes de reis e rainhas nunca cruzam os lábios de seus residentes. Visitas anuais de um único mercador viajante servem como um feriado por si só. Seja qual for a estrada que o mercador use para encontrar este lugar, ele não a compartilhou com o mundo, pois até os phyrexianos negligenciaram este lugar.

Talvez eles não gostassem de ovelhas.

Há mais ovelhas na aldeia do que pessoas, pelo menos cinco vezes mais. Quando as pessoas dizem a palavra Orrinshire, a palavra "lã" inevitavelmente se segue.

Kellan não gosta daqui. E enquanto ele entra furtivamente pela porta da pequena casa de sua família, ele sabe que o sentimento é mútuo. Ele apenas espera que sua mãe não perceba os sinais.

Mas as mães são dotadas de muitos talentos mágicos, entre eles a habilidade não natural de fazer perguntas que seus filhos prefeririam que não fossem feitas. Enquanto Kellan cruza a porta, sua mãe levanta os olhos de sua fiação — e, quando o faz, seu rosto cai da alegria para a preocupação.

"Bem-vindo ao lar, queri — oh, não. Você está ferido?"

Ele tenta acenar para que ela não se levante, mas não adianta. Ela percorreu a pequena distância em um piscar de olhos. Ela já está olhando para os arranhões em sua bochecha, as picadas de sangue em seus antebraços.

Kellan decide olhar para o chão em vez de para sua mãe. "Não é nada demais", ele murmura.

"Não é nada demais?", ela repete. Das dobras do capuz dele, ela tira um prego. "Kellan, o que é isso? O que eles fizeram com você lá fora?"

Ele estremece. Achou que tinha tirado todos, mas deveria saber que haveria um escondido em algum lugar. "Foi apenas... precisamos falar sobre isso?"

Ele não precisa ver o rosto de sua mãe para saber que o coração dela está murchando. Ela alisa as lascas de teixo do cabelo de Kellan com um fungado. "Oh, querido, sinto muito. Não precisamos conversar se você não quiser." Depois de respirar fundo para se recompor, ela vira a cabeça e dá um grito. "Ronald! Ronald, pegue um pouco de água do poço para mim!"

Kellan estremece quando seu padrasto grita em resposta. Quando sua mãe o leva para sentar à mesa, ele se joga na cadeira com um beicinho, desmoronando como uma marionete cujas cordas foram cortadas. Sim, bem como uma marionete, ele é magro e pequeno para seus dezesseis anos. Motivo a mais para os outros garotos o terem escolhido como vítima. Ele ainda não encontra o olhar de sua mãe, nem mesmo quando ela busca um pano limpo e começa a limpar o sangue de sua pele parda.

"Foram os meninos Cotter?", ela pergunta. "Devo cinco meadas à Matilda, posso dar uma bronca nela enquanto as entrego —"

Kellan suspira. Ele não consegue mentir. "Não é culpa deles."

"Se foram eles que te machucaram, não vejo como não seria", responde a mãe.

Sorrisos largos. Risos e insultos enquanto ele fugia deles. Você nunca pertenceu aqui, mestiço.

"Eles me fizeram uma pergunta, eu respondi errado, é só isso", diz Kellan. Ele ouve os passos pesados do padrasto, o abrir da porta.

"Que tipo de pergunta justifica esse tipo de tratamento?", diz sua mãe. "Kellan, querido, o que quer que tenha acontecido, nada disso é culpa sua. Você não respondeu errado. Esses meninos, eles têm..."

"Eles têm medo de mim, eu acho", diz Kellan. "Eles acham que o Sono é culpa minha."

Seu padrasto chega; o balde para ao lado deles espirrando água. "Quem tem medo do nosso Kellan? Uau — o que aconteceu?"

"Não é nada demais", diz Kellan. Ele quer se levantar e se esconder, para que eles parem de olhar para ele e para os cortes em seu rosto, mas ele sabe que isso não vai acontecer.

"Os meninos Cotter. Olhe o que eles jogaram nele", diz a mãe, tirando outro prego de suas roupas. "E olhe para o cabelo dele! Não tenho ideia do que deu na cabeça deles..."

Um suave hrm de Ronald. Ele tira uma lasca de madeira do cabelo castanho ondulado de Kellan e a leva ao nariz. "Teixo, e aposto que esse prego é de ferro frio. É isso, Kellan?"

Mordendo o lábio, Kellan assente.

A mãe para no meio do gesto. "A pergunta que eles lhe fizeram..."

Ele ainda não olha para cima. "Eles perguntaram se era verdade que meu pai biológico era uma fada."

O prego cai entre os três.

Ronald é o primeiro a quebrar o silêncio. Ele põe a mão no ombro de Kellan. "Não importa o que digam, filho. Tudo o que importa é quem você é, não de onde você veio. E quem você é é o nosso garoto."

Kellan engole em seco. A pergunta é quase assustadora demais para ser feita, mas ele tem que ser corajoso. Os heróis de todas as histórias são corajosos. "Mas... Mas e se for verdade, e for isso que eu sou? Eu não pertenço à floresta?"

"A floresta não é do jeito que você pensa", diz a mãe. "Há perigos lá que você ainda não pode imaginar, meu querido menino. Quando você for mais velho, poderemos enfrentá-los juntos. Mas, por enquanto..." Sua mãe o abraça com força. Por um momento, ele não tem certeza de quem está abraçando quem. "Você pertence aqui", diz sua mãe. "Conosco. Não importa o que digam."

Mas não era a primeira vez que ela dizia isso a ele, nem a primeira vez que todos se abraçavam.

E por mais que Kellan ame sua família, quando ele olha para a floresta...

Quando ele olha para a floresta, tudo o que sente é saudade.

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O Castelo de Ardenvale jaz em ruínas. Meio queimado e abandonado, não é um lar adequado para um pretendente a Grão-Rei e sua corte. Will fixou residência no Castelo Vantress, em vez disso. Talvez ele espere que o conhecimento que se infiltrou na pedra lhe conceda sabedoria.

Rowan não tem tanta certeza disso. Embora ela estivesse de pé na sala de guerra improvisada de seu irmão há quinze minutos, esta é a primeira vez que ele percebe que ela está lá. Não importa que os guardas a tenham anunciado, não importa quantas vezes ela tenha limpado a garganta, os papéis dele o interessaram mais. Ela não pode culpá-lo por isso, não inteiramente; como rei em exercício, Will está enterrado sob uma pilha de papelada mais alta que os dois juntos. Alianças, acordos de impostos, juramentos de fidelidade e condenações fervorosas — é impossível distinguir o que é o quê quando a pilha é tão alta.

Claro, ela pode culpá-lo por assumir o título, para começar.

É fácil ver o quanto tudo isso o desgastou. Há olheiras sob seus olhos e barba por fazer em seu queixo. O olho roxo que ele sofreu durante a luta com Imodane ainda não cicatrizou. Ou Will não se deu ao trabalho de pedir a Cerise para curá-lo ou ele está tentando passar uma mensagem. Deve ser a segunda opção — se Cerise tivesse colocado os olhos nele, já teria sumido, independentemente do que ele quisesse.

"Estamos indo embora", diz ela.

Will semicerra os olhos para ela. Sua própria gêmea, e ele não consegue reconhecê-la. Ele acha que pode governar o reino assim? "Não pense com o seu braço da espada, Rowan", diz ele, soando muito mais como um pai sobrecarregado do que o pai deles jamais soou. "Nossos irmãos precisam de nós. Nosso povo precisa de nós."

"Eu já disse a Hazel e Erec que ficarei fora por um tempo, e acho que isso é a melhor coisa que podemos fazer pelo Reino", diz ela. Ela tinha um discurso em mente antes de vir aqui, mas agora percebe que as palavras mudaram. "Olhe para você, Will. Você está exausto. Os soldados me disseram que você não dorme há dois dias e, olhando para você agora, eu acredito. A notícia vai se espalhar pelo reino sobre o que aconteceu nos penhascos —"

"— Uma situação que poderíamos ter evitado se você tivesse confiado em mim", ele interrompe, afiado como gelo. Will se empertiga e cerra a mandíbula. Sem desviar o olhar, ele pega uma carta. "O Marquês de Roxburgh me escreveu hoje. Ele diz que não se ajoelhará para um homem que permite que sua irmã inflija tal dano aos outros. ‘Um covarde não pode ser o Grão-Rei de Eldraine’, ele diz. Não é a única carta desse tipo que recebi. Eu gostaria que você tivesse confiado mais em mim."

Há uma pontada de dor na têmpora de Rowan, uma dor de cabeça com a qual ela tem lidado ultimamente, uma que corroeu sua paciência. Ela aperta os olhos. "Você estaria morto se eu não tivesse interferido. Mas ele está certo sobre uma coisa: você não é o verdadeiro Grão-Rei de Eldraine. Você não participou da Grã-Busca."

"Não me critique por um tecnicismo. O Reino precisa de um Grão-Rei; eu fiz o que tinha que fazer. E eu teria feito o mesmo nos penhascos. Eu tinha um plano, Rowan. Nem sempre preciso que você me salve", diz ele. "Temos que ter cuidado com a impressão que estamos passando. As pessoas querem estar unidas, e eu quero uni-las. Abrir um buraco em uma montanha não é a ideia de união de ninguém. Eu poderia ter conversado com ela, encontrado algum caminho, mas agora ela fugiu para a floresta e seus rebeldes têm motivos para nos temer."

"E daí? Que tenham medo. Duvido que qualquer um deles vá saquear o campo tão cedo depois da surra que levamos a eles. Prefiro ter mil bandidos vivendo com medo de mim do que uma dúzia de fazendeiros vivendo com medo de bandidos", diz Rowan.

O irmão dela cerra a mandíbula, aperta a ponte do nariz. "Não é o que nossos pais teriam feito."

A dor de cabeça martelando em sua têmpora, sua própria raiva contida, a centelha em seu sangue — quem pode dizer o que a faz explodir com ele? Mas ela explode. "Essa é boa, Will. Nossos pais não ignorariam uma maldição que está se espalhando pelo reino. Ou a ‘união’ vai resolver o Sono Maldito também? Eu não sabia que tudo o que aquelas pessoas precisavam era de um aperto de mão e uma caneca de cerveja. E antes que você se esqueça, nossos pais conquistaram seus títulos. Você apenas decidiu se chamar de Grão-Rei porque achou que lhe caía bem, não importa o quanto eu tenha dito que não."

Ela foi longe demais, ela sabe disso. Mas tudo bem. Eles não precisam mais falar sobre isso. Tudo o que precisam é focar em encontrar uma maneira de resolver o problema. O Sono Maldito pode ter parado os phyrexianos, mas o Reino fez um acordo terrível para pagar por isso. Agora está se espalhando entre os cidadãos de Eldraine sem fim à vista. Nada pode acordar os sonhadores — nem o beijo do verdadeiro amor, nem um balde de água gelada.

Desde que consigam resolver o problema do Sono Maldito, o povo se unirá a eles. As melhores mentes de Vantress não o decifraram nos meses que tiveram para estudar a questão — mas as melhores mentes de Vantress não têm acesso ao Multiverso.

Os gêmeos têm.

Além disso, isso os tira daqui. Do castelo que não é bem deles, das memórias.

E, apesar de todas as suas diferenças, eles compartilham pelo menos uma coisa em comum: sua centelha. Rowan busca seu poder como fizera tantas vezes antes.

Will fica tenso. "Rowan, não podemos simplesmente ir embora —"

"Também não vamos ficar sentados aqui", diz ela. "Strixhaven nos ensinou a encontrar soluções mágicas para nossos problemas. É isso que precisamos fazer."

"Eu sou o Grão-Rei. Tenho que ficar aqui!"

Estranho. Eles já não deveriam ter partido? Deve ser culpa de Will — sua petulância os está mantendo no lugar. Ou talvez sua insistência irritante em um título não conquistado. "Seu dever é com Eldraine, e o dever está chamando. Você está arruinando meu foco."

Desta vez, ela coloca todo o seu foco em transplanar — fecha os olhos, força-se a olhar além da dor lancinante em sua cabeça, de suas próprias frustrações.

Mas fechar os olhos é um erro. Mais uma vez ela os vê nos corredores longos e curvos do Castelo de Ardenvale: seu pai, espada na mão; o behemoth phyrexiano contra o qual ele luta. Sua madrasta e seus irmãos fugindo, direto na direção de Will e Rowan, o medo nos olhos das crianças e a determinação nos de sua madrasta.

"Mantenha-os seguros e vivam bem", diz Linden.

Ela sabe como essa história termina.

Ela não quer ver.

"... Rowan?", diz Will. Pela primeira vez desde que começaram esta conversa, ele soa preocupado. "Você está bem?"

Seu peito parece apertado, sua cabeça parece ter um prego atravessado e, sempre que ela fecha os olhos, vê o pai morto na ponta da lâmina de um phyrexiano.

E, como se tirar seus pais e arruinar seu relacionamento com o irmão não bastasse, os phyrexianos pareceram ter tirado algo mais dela. Ela não consegue limpar a mente o suficiente para transplanar. A centelha — ela não parece responder. Na verdade, ela não consegue senti-la de forma alguma.

"Não", diz ela, secamente. "Tudo bem. Fique se quiser. Eu vou embora."

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A cada lua nova, Kellan e sua mãe caminham até um velho salgueiro na orla da floresta. Com a casca contra suas costas e as folhas sombreando seus olhos, a mãe de Kellan lhe conta histórias. As estrelas dançam diante de seus olhos a cada palavra. Vaga-lumes tornam-se escudos reluzentes de cavaleiros; folhas de grama balançando, suas espadas.

Ultimamente, em vez de um novo conjunto de heróis a cada vez, ele ouve sobre dois notáveis em particular: uma jovem que fugiu de seu treinamento como feiticeira de sebe e um jovem que ela salvou do ataque furioso de um trol. Pelas terras selvagens eles viajaram juntos, enfrentando todo tipo de fera e mago astuto.

Ele tem a sensação de saber quem são, mas está gostando de conhecê-los desta forma.

Nesta noite, como em qualquer outra noite de lua nova, ele está quase correndo para o topo da colina. O cão pastor da família o segue em seu rastro, saltando pela grama, cheio de energia apesar da hora.

"Acha que consegue me vencer, garoto?", Kellan chama.

Hex late, com saliva voando de suas bochechas prodigiosas.

Kellan sorri. Ele dá um tapinha em Hex enquanto corre, mas o ultrapassa da mesma forma. Não há misericórdia quando se trata de apostar corrida com o seu cão pastor.

Quando finalmente chegam à árvore, ele está ofegante, mas mais feliz do que esteve o dia todo. Daqui da colina, o resto da aldeia parece tão distante quanto o Castelo de Ardenvale. Ele põe a mão na casca confortante do salgueiro e se vira. Sua mãe disse que chegaria em um momento — ele podia vê-la daqui.

Mas quando ele olha para fora, não é a aldeia que ele vê.

Na verdade, não é apenas a aldeia. À sua frente, há um portal feito de pedra etérea e translúcida.

As histórias de sua mãe o prepararam um pouco. Ele sabe precisamente o que é: um convite para falar com uma das Grã-fadas.

Quanto ao porquê de estar aqui...

O fôlego de Kellan para em seu peito. À direita do portal, ele pode ver sua mãe correndo colina acima. Se ela o vê, não disse uma palavra.

Ele poderia ficar aqui. Poderia esperar por ela, ignorando a porta até que ela desaparecesse.

Mas seus arranhões ainda doem, e as palavras de seus supostos companheiros ecoam em sua mente. Você não pertence aqui.

Se eles estiverem certos... Será que seu pai finalmente o notou? Seu verdadeiro pai?

No momento em que Kellan tem o pensamento, sua mão está na estranha maçaneta. Hex late furiosamente. Cada latido parece estar no ritmo das batidas do coração de Kellan. Mas ele não pode hesitar — esta pode ser sua única chance. Se sua mãe o alcançasse, nunca o deixaria passar.

Kellan atravessa o portal. Um herói nunca hesita. Uma rajada de vento invisível o lança pelo restante do caminho e ele cai em um chão fresco e musgoso. Somente quando se apoia ele percebe que a grama aqui é toda prateada; as árvores retorcidas acima carregam frutas de joias. Ao longe, ele vê casas com telhado de palha grandes como montanhas, enquanto ao seu redor existem castelos em miniatura povoados por cavaleiros em miniatura que se movem.

Arte de: Anna Steinbaurer

Quando ele volta os olhos — um pouco assustado, agora — para o horizonte mais uma vez, ele avista a escadaria e, no topo, o trono. Há uma figura sobre ele.

Os humanos gostam tanto de chamar as coisas de belas quanto de respirar. Ao fazer isso, o significado da palavra se desgastou, assim como uma montanha pode, ao longo de eras, tornar-se uma praia.

A razão para isso é simples: a verdadeira beleza, pura e sem mácula, é o suficiente para deixar quem a vê sem sentidos.

A figura que se senta no trono é tão bela quanto as próprias estrelas. Kellan, que nunca se aventurou longe de sua aldeia, não consegue compreender o que está vendo. Os traços do rosto da figura o seduzem; o lampejo de seu sorriso malicioso o deixa sem pensamento algum.

"Diga-me, bravo herói... Você tem um coração sincero?"

É apenas um véu passageiro de nuvens — nuvens que não tinham o direito de estar tão baixas — que dissipa a fascinação fatal de Kellan. O que as histórias diziam? Melhor evitar olhar diretamente para as fadas. Ele olha para o chão.

"Não sei. Acho que gostaria de ser", ele diz.

"Essa não é uma resposta" , diz a figura. Eles suspiram, da mesma forma que sua mãe fazia ao imitar príncipes. "Você é verdadeiramente filho de seu pai? Carregando tais feridas, sem ter causado o dobro em troca?"

Seu coração salta uma batida dolorosa. "Então, é verdade? Sou meio-feérico? V-você conhece meu pai? Espere, você é...?"

Talvez se ele visse melhor o rosto da figura, ele saberia. Ele dá um passo à frente — apenas para que rosas prendam seus pés no lugar.

"Cuidado, criança. O sangue que compele o ódio dos mortais lhe oferece alguma proteção aqui. Mas essa proteção é finita" , dizem eles. "Permaneça onde está e não farei nenhum movimento para detê-lo, mas dê outro passo e você abandonará seu reino pelo meu ."

Oh. Este era o Lorde Feérico. Quem mais poderia ser? Os joelhos de Kellan batem um no outro. Ele tenta se ajoelhar, como todos os cavaleiros fazem. Ele se sente bobo. "V-Vossa Majestade."

"Lorde Talion," eles respondem.

"Lorde Talion", diz ele. "Você conhece meu pai?"

"Eu sei de muitas coisas. No entanto, se você sabe quem eu sou e de onde veio, sabe que nossa espécie não entrega nada," Talion responde. Eles se inclinam para frente no trono, apoiando a cabeça na mão. "Temos nossas próprias leis. Preste-me um serviço, criança, e você terá suas respostas."

Nossa espécie. Nossas próprias leis. Este lugar, com suas frutas de joias, com animais estranhos esgueirando-se entre árvores ainda mais estranhas. Estar aqui é estar na casa de um parente perdido há muito tempo, incerto do significado que qualquer coisa carrega.

No entanto, as fadas não mentem. Sua mãe sempre foi clara sobre isso. Quando você lida com fadas, quanto mais direta a resposta, melhor. E isso lhe pareceu bem direto.

"O que você precisa?"

Talion cantarola uma melodia estranha, tão adorável quanto o canto de um pássaro. Eles estalam os dedos e duas fadas aparecem de cada lado de Kellan, cada uma com uma tigela de frutas cintilantes. O estômago de Kellan ronca com a visão; sua garganta parece seca. "Você deve estar com fome."

Mas sua mãe o ensinou bem, e o próprio Talion disse: as fadas não fazem nada de graça. "Não, obrigado."

Talion sorri com desdém. Com um aceno de mãos, dispensa as outras fadas.

"Aos negócios, então. Três bruxas assolaram esta terra com o sono. Agatha, a Faminta, espreita perto de seu grande caldeirão, em busca de heróis para comer. A cruel Hylda tomou a coroa do inverno para si. Onde quer que existam amantes e lordes, você encontrará a sedutora Eriette. Quem quer que seja corajoso o suficiente para derrotá-las quebrará a maldição sobre o Reino e, por esse serviço, ganhará uma recompensa do meu tesouro sempre cheio."

Uma maldição sobre o Reino? Três bruxas? Talion precisa de um herói de verdade. As palmas das mãos de Kellan suam. A coisa mais corajosa que ele já fez foi atravessar aquele portal. Ele nunca lutou uma batalha, nem completou uma missão. Mas como ele pode dizer não? Este lugar, essas pessoas... eles são do seu sangue também, não são? Talvez seu pai seja um cavaleiro feérico, forte e audaz; ou talvez um mago, astuto e inteligente. Quem quer que ele tenha sido, era alguém que Talion respeitava. Isso não deveria significar algo?

Kellan quer saber mais sobre ele. Quer ser mais parecido com ele, esse homem que habita entre a grama prateada, em uma terra de beleza impossível. Sua mãe a vislumbrou uma vez e partiu — mas Kellan só quer mais.

Se ele falhar, falhou. Mas se conseguir, finalmente saberá a verdade.

"Eu farei isso. Eu vou."

Episódio 2: Cavaleiro Errante, Herói em Ascensão

Através dos vales e pelas terras selvagens aventura-se Rowan Kenrith. No topo de um cavalo robusto, com uma lâmina afiada pendurada no quadril e faíscas dançando nas pontas dos dedos, ela viaja para onde os ventos a guiam. Com prazer, o povo comum a acolhe em suas casas, oferecendo o pouco que têm; com prazer Rowan aceita sua gentileza. Nas primeiras horas da madrugada, quando eles perguntam por que ela está acordada, ela pergunta se ouviram onde ela poderia encontrar uma cura para o Sono Maldito.

"Tem certeza de que não anseia por isso?", perguntou Royse, cujas finas tramas até os feéricos passaram a cobiçar. Rowan já se hospedou em palácios menos bem equipados que a casa de Royse. Os feéricos concedem presentes a criadores de beleza, ao que parece. "Você parece que poderia usar o descanso."

"O descanso não tem utilidade para mim", respondeu Rowan.

Royse, com os olhos brilhando no escuro, estalou a língua baixinho. "O descanso virá para você, quer queira quer não. Melhor enfrentá-lo em seus próprios termos", disse ela. "Mas se você está determinada a continuar em sua busca, brava cavaleira, há um castelo não muito longe daqui. Seu senhor morreu há muito tempo — há mais tempo do que os da sua espécie se lembram."

"Minha espécie?" O aperto de Rowan em sua espada aumentou.

Royse apenas sorriu. O luar brincou em sua pele e o glamour quebrou, revelando oito olhos, duas mandíbulas estalantes, oito braços escondidos sob sua estola.

Não é de admirar que sua tecelagem fascinasse tanto humanos quanto feéricos.

"Você é—" começou Rowan.

Royse colocou suas duas mãos humanas nos joelhos. "Prometi-lhe abrigo e dei-lhe comida; não somos inimigos."

Rowan relaxou o aperto. Ela não dormiu naquela noite, mas aprendeu um pouco sobre tecelagem.

De manhã, Royse apontou o caminho para o castelo, desejando boa sorte a Rowan em sua jornada.

Suas muralhas desmoronadas e parapeitos antigos agora a recebem.

A poeira impregna seus pulmões quanto mais fundo ela vai. Servos mortos-vivos se erguem para enfrentar sua lâmina. Com o coração endurecido contra tais visões, ela os abate, com suas entranhas escorregando pelos pisos de pedra. Quando ela finalmente encontra a biblioteca, suas prateleiras estão vazias. Não há alambiques aqui, nem caldeirões para fabricação de poções, nem segredos perdidos — apenas o que os saqueadores deixaram para trás.

Depois de tudo o que ela fez para chegar aqui, todo o sangue que derramou — nada.

Sozinha no castelo abandonado, Rowan Kenrith torna-se uma tempestade. Ela imagina o que seu irmão diria se a visse aqui, e isso só a leva ainda mais à fúria. No momento em que percebe que começou a chorar, seu corpo já está tremendo e exausto.

Contra toda a lógica, há uma cama neste lugar, intocada pelos estragos do saque. Quando ela desaba sobre ela, percebe a verdade das palavras de Royse: o descanso virá, de uma forma ou de outra.

O sonho a engole.

Mais uma vez ela caminha pelas portas deste castelo — mas elas estão inteiras, a madeira polida e nova. Nos corredores há bardos e dançarinos. Mulheres belas e homens bonitos a conduzem adiante. Um escudeiro apto remove sua armadura tão suavemente que ela esquece que algum dia a usou. Um roupão quente é colocado sobre seus ombros, uma caneca de hidromel colocada em sua mão. Levada por tais delícias, ela se encontra diante de uma mesa de banquete.

Seu pai e sua mãe estão à cabeceira. Fortes, saudáveis, rostos radiantes na luz dourada do castelo, eles abrem os braços em sua direção. "Rowan, você conseguiu", diz Linden.

O peito de Rowan aperta. Lá estão eles, exatamente como ela se lembrava deles — sem cicatrizes, exceto as que ganharam em sua juventude, sem feridas sangrentas. Eles estão tão felizes .

Ela deixa o hidromel cair, correndo para eles a toda velocidade. Seu pai a levanta do chão e a gira. Sua mãe alisa seu cabelo e limpa as lágrimas nos cantos dos olhos de Rowan.

"Você veio de tão longe para nos ver", diz Linden. "Estamos tão orgulhosos de você."

Sua boca se abre repetidamente, mas ela não consegue falar.

"Você precisa do nosso conselho, não precisa?", pergunta seu pai.

Sem palavras, ela acena com a cabeça.

Ele tira a coroa de sua cabeça e a coloca sobre a dela. "Venha para o Castelo de Ardenvale. Seu sangue espera por você lá."

Ela acorda, sozinha no castelo empoeirado. A luz do sol entra pelas janelas quebradas. Ela deve ter dormido a noite toda. Sozinha, cercada pela morte e pelo frio, ela se permite outra chance de chorar.

Pois quando acabar, ela fará o que seu pai lhe pediu.

Ela irá para o Castelo de Ardenvale.

Arte de: Aurore Folny

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"Um. Com licença, senhor, mas o senhor viu alguma bruxa ultimamente?"

Este homem, como todos os outros a quem Kellan perguntou antes dele, ri. "Ah, sim, tem uma logo ali na frente. Vende as melhores tortas de Edgewall. Diga a ela que Duncan te enviou."

Ele é gentil o suficiente para atirar uma moeda. Kellan a guarda em uma bolsa, seus ombros caídos, seu espírito abatido mas não quebrado. Este é apenas o primeiro passo em sua jornada, certo? Há tantas pessoas em Edgewall. Uma delas deve saber de alguma coisa. Tudo o que ele tem a fazer é continuar tentando. Com um grunhido de esforço, ele ajusta a mochila nos ombros e segue pela rua longa e sinuosa.

Durante toda a sua vida, sua mãe lhe contou histórias de lugares como este — de anões, faunos, cavaleiros e magos. Eles não pareciam reais até agora. Do outro lado da rua da loja de tortas, uma mulher élfica vende passarinhos de madeira encantados. Mais adiante, um Cavaleiro Verdejante fala com um ferreiro. Há estandartes e enfeites em todos os lugares onde o olhar pousa. Ele acena para si mesmo enquanto caminha, decidido. Não há lugar melhor para viver do que aqui.

Ele já pode ver que a fila na loja dobrou e triplicou. Elas realmente devem fazer ótimas tortas — mas não tem como ela ser uma bruxa de verdade. Sua mãe sempre lhe dizia que cozinhar é o mais próximo que a maioria das pessoas consegue chegar, no entanto, então talvez a mulher que a administra saiba de alguma coisa.

Kellan se coloca no final da fila. Enquanto espera, seus olhos vagam sobre os mensageiros correndo de um lado para o outro, o bardo tocando seu alaúde. Ele cantarola junto. Um grupo de crianças com roupas feitas de folhas joga pinhas de um lado para o outro em um acesso de risos e gargalhadas. Kellan sorri, observando-as.

Mas então ele vê o homem adormecido sob o beiral de uma loja, um redemoinho violeta ao seu redor. Seus olhos estão fechados, sua boca aberta; enquanto ele se balança, a baba cai em sua armadura.

Este deve ser o Sono de que o mercador falou em sua última visita. Vê-lo pessoalmente é uma coisa estranha. Há quanto tempo ele está assim? Há um toque de ferrugem onde sua saliva atinge a armadura. Por que ninguém o ajuda?

Pior, alguém com pressa esbarra no dorminhoco. O dorminhoco dá um solavanco, cai — e ninguém o ajuda a se levantar.

Kellan não pode deixar isso assim. Ele dá um passo em direção ao cavaleiro caído.

Uma mão em seu pulso o desperta de seus pensamentos. Ele olha para o dono da mão e encontra uma garota com uma capa vermelha, as sobrancelhas franzidas. "Você pode não querer fazer isso."

Kellan puxa a mão de volta. "Por que não? Ele precisa de ajuda."

A garota faz uma careta. "Você é o garoto que vive perguntando às pessoas sobre bruxas?"

Kellan faz uma voz de herói, ou tenta fazer, mas a voz falha e o desmascara. "Pode ser que sim. Depende de quem está, hã, perguntando."

A garota ri e balança a cabeça. Ela pega a mão dele novamente e começa a puxá-lo. "Tudo bem, herói, você vem comigo."

"O quê? E quanto a — Ei! E aquele homem?", Kellan pergunta.

"O Sono Maldito se espalha, embora ninguém tenha certeza de como", responde ela. "Se você tocá-lo, ele pode te pegar também. Isso se as bruxas não te pegarem primeiro."

Kellan olha por cima do ombro para o dorminhoco. Enquanto a garota o puxa para um beco, alguém enfia uma espátula de madeira sob o homem. Com um pouco de esforço, ele está em pé mais uma vez. Qualquer alívio que Kellan sinta é mitigado pela sua surpresa ao perceber o que a garota acabou de dizer.

"Espere. Elas estão atrás de mim?"

A garota olha para os dois lados do beco antes de falar. "Elas vão estar, se você continuar fazendo perguntas como essas. Você não sabe que não deve atrair a atenção de uma bruxa?"

"Você sabe muito sobre bruxas?", ele pergunta. "Se souber, eu realmente poderia usar sua ajuda. Acabei de chegar aqui, então não sei muito, mas tenho uma missão para terminar."

"Uma missão?", diz ela, fazendo uma avaliação rápida dele. "Você tem uma missão. Você nem tem uma espada."

"Heróis não precisam de espadas", diz ele. Ele omite que a única espada que seu padrasto possuía estava enferrujada, então ele não pôde trazê-la. "Além disso, ganhei estes do meu senhor, e ele disse que são tão bons quanto qualquer lâmina. Estes significam que sou um herói de verdade!"

Ele brande o par de cabos de cesta — o presente de despedida de Talion. A madeira antiga cresceu para imitar o aço trabalhado da ferraria humana, com um brilho peculiar proclamando sua procedência sobrenatural. Eles certamente impressionariam qualquer um .

Mas a garota não é qualquer pessoa e os encara apenas com uma sobrancelha levantada. "Sempre que alguém insiste que algo é real, significa que não é." Ela suspira. "De qualquer forma, eu não seria de muita ajuda. Você tem que ir até Dunbarrow. Meu irmão, Peter, conhece cada centímetro daquele lugar como a palma da mão. Ele poderia te ajudar."

Kellan guarda seus cabos com uma gratidão tímida. "Você poderia me levar até ele?"

A expressão da garota se obscurece sob a aba de sua capa. "Não o vejo há dias. Achei que talvez você o tivesse visto, já que é de fora da cidade."

"Ah", Kellan diz baixinho. "Sinto muito. Eu não sabia. Eu, hã, acho que não encontrei nenhum Peter no caminho para cá."

"Típico", diz a garota. Ela se vira. "Bem. Desejo-lhe tudo de bom em sua missão, herói. Se vir meu irmão, diga a ele que Rubi está esperando por ele em casa."

Kellan, meia cabeça mais baixo que ela, arrasta-se atrás dela. "Espere! Você mesma pode dizer a ele se vier comigo."

Ela para. Quando ela se vira desta vez, sua sobrancelha está levantada. "Você vai encontrá-lo?"

"Pode ser", diz Kellan. "Você disse que Dunbarrow é onde todas as bruxas estão. Você já esteve lá, não esteve?"

Rubi limpa o ombro. "Uma ou duas vezes."

"Aposto que foi mais do que isso", diz Kellan. "Se você puder me ajudar a encontrar a bruxa que estou procurando, então talvez meu suserano possa te ajudar a encontrar seu irmão."

Rubi inclina a cabeça. "E quem exatamente é o seu suserano, afinal?"

Ah, não. Ele não pode dizer que é o Senhor dos Feéricos. Não é assim que se ganha a confiança de ninguém. Mas ele também não pode mentir. As bochechas de Kellan esquentam. "Eles não gostam muito que as pessoas falem sobre eles", diz ele. É verdade o suficiente, certo? "Mas eles estão me ajudando a encontrar meu pai. É o que eu ganho por terminar a missão — a chance de saber quem ele é. Então tenho certeza de que eles te ajudarão com seu irmão."

Uma pausa. Rubi o estuda. Ele tenta se manter ereto. "Você tem certeza de que seu suserano pode ajudar?"

Kellan acena com a cabeça. "Tão certo quanto a lã de uma ovelha."

Rubi franze a testa por um segundo, depois acena com a cabeça, a tensão deixando seus ombros. "Tudo bem. Acho que alguém tem que cuidar de você, e que seja eu então."

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Pelas charnecas e através dos túmulos em busca de bruxas eles vão.

Pelas histórias que sua mãe lhe contava, Kellan esperava que as terras selvagens fossem mais bonitas que isso. Talvez seja o rescaldo da guerra. Rubi diz a ele que as aberrações metálicas afiadas pontuando o campo são vestígios phyrexianos, retalhados depois que o Sono os parou em seu caminho.

"Aquelas coisas costumavam estar vivas?", ele pergunta a ela.

"Se você puder chamar aquilo de vida", responde ela. "Você realmente não sabe?"

Parando ao lado de um deles — o que parece ser algum tipo de aríete de guerra andante — ela lhe mostra o óleo escorrendo de dentro dele, o rosto com seus dois olhos lacrimejantes.

Kellan se vira, preferindo as árvores retorcidas de Dunbarrow ao corpo retorcido do invasor. "De onde eles vieram?"

"De algum outro lugar, diz o Menino-Rei", explica Rubi. "Algum outro Domínio."

"Existem outros Domínios?" Enquanto caminham juntos pela floresta, ele faz o seu melhor para manter o cadáver ignóbil atrás dele, focando, em vez disso, nas formas esvoaçantes das pixies, nos rastros pretos dos pássaros no céu, nos arminhos que passam velozes. "Como eles são?"

"Não sei", Rubi responde. "Se eles têm aquelas coisas neles, no entanto, estou bem sem visitar o lugar. Além disso, eu nunca iria a lugar nenhum sem meu irmão."

Kellan acena com a cabeça. "Eu também nunca iria a lugar nenhum sem minha família. Para qualquer lugar, você sabe. Diferente. "

Rubi arqueia uma sobrancelha para ele. "Mesmo que fosse pela sua missão?"

Ele deixa essa passar, sem querer nem considerar isso.

Rubi remove um galho caído com uma facilidade surpreendente, depois ajuda Kellan a fazer o mesmo. Quando seus pés atingem a terra, a água espirra em seus sapatos. Ela solta um grito. Em algum lugar na floresta ao redor deles, uma pixie ri.

Desde tempos imemoriais, tem sido indelicado rir de uma garota em dificuldades. É dever de um herói defender tais donzelas.

Kellan franze a testa e se prepara para gritar com a criatura travessa para que ela vá embora — até que Rubi pega uma maçã de sua cesta e a arremessa com a força de um gigante arremessando uma pedra, tão rápido quanto o dardo de uma besta. A pixie grita de dor.

Rubi faz beicinho. "Elas são tão irritantes", diz ela, continuando pelo caminho não marcado como se não tivesse demonstrado tais talentos.

Kellan, maravilhado, só consegue seguir. "Pelas feridas do Rei, que tiro!"

Ela para apenas para encará-lo por dizer tal coisa. "Feridas do Rei. Sério?", diz ela. "É apenas uma maçã. Tenho certeza de que você pode fazer muito mais com essas espadas extravagantes que seu suserano lhe deu."

É preciso um esforço concentrado para não tropeçar quando ela diz isso, embora não haja sarças à vista. Ele tenta pensar em algo para dizer, ou qual a melhor maneira de dizer a ela que não tem ideia de como transformar os cabos em algo útil, mas as palavras são tão traiçoeiras quanto a pixie que Rubi despachou tão facilmente. Tudo o que ele consegue é um incerto hmm .

Mas isso faz pouca diferença, pois naquele momento uma flecha assobia perto de seu rosto, raspando a ponta de seu nariz antes de atingir a árvore mais próxima dele. Kellan cobre o rosto em alarme. Seriam aqueles tambores de guerra que ele está ouvindo, ou seu próprio pulso frenético?

Embora o medo tenha levado a melhor sobre ele, Rubi é rápida em agir como sempre. Ela derruba Kellan em um arbusto de amoras. A tecelagem de sua mãe o mantém a salvo dos espinhos sedentos de sangue — e as folhas o mantêm a salvo de seu agressor.

"Pelas feridas do Rei, o que é aquilo ?', Rubi sussurra.

Além da borda do matagal eles podem vê-lo: o homem com armadura de lobo. Sob a cota de malha, um gibão vermelho-sangue parece um presságio de feridas que virão. O arco que disparou a flecha quase fatal é tão perverso quanto os espinhos do arbusto; em seu quadril pendura-se uma espada tão longa quanto as pernas de Kellan. A bocarra de metal rosnante de um lobo oculta tudo, exceto seus olhos ardentes.

E ele está olhando diretamente para eles.

A garganta de Kellan está apertada. Ele viu um cavaleiro pela primeira vez há apenas algumas horas — o que é essa coisa?

O Cavaleiro Lobo caminha em direção a eles.

"Corra!", Kellan grita.

Rubi não precisa ser avisada duas vezes. Atirando-se do arbusto, eles se apressam em ficar de pé e correm para frente. Um uivo sem palavras do Cavaleiro Lobo ecoa pela floresta; corvos fogem de seus ninhos aterrorizados. Até as pixies que os atormentaram antes se afastaram.

Outra flecha assobia por cima do ombro de Kellan.

"Agora seria um ótimo momento para aquelas espadas mágicas", Rubi grita. "Não podemos continuar correndo para sempre!"

Kellan engole em seco. A pressão aumenta dentro de seu peito. Ele não pode mentir para ela — mas os cabos também não são espadas. São apenas... cabos. Talion disse que eles ajudariam a refinar suas habilidades. Claro, em todo o tempo que viajou com eles, ele não foi capaz de fazer nada, exceto socar as coisas um pouco mais forte, ou...

Bem, é melhor que nada. Virando-se para o Cavaleiro Lobo, Kellan arremessa um dos cabos com toda a força que pode.

Ele ricocheteia inutilmente em sua armadura — e depois voa de volta para a mão de Kellan.

"Ops", diz ele.

"O que foi — Tudo bem. Tudo bem, ok. Eu cuido disso. Siga-me", Rubi chama.

O gemido dela dói, mas ele não pode culpá-la. Seria ótimo se ele soubesse como usá-los. Ele provavelmente poderia fatiar um carvalho inteiro com uma lâmina forjada pelos feéricos, mas como as coisas estão... ele é meio que uma piada. "Sinto muito, ainda estou aprend— espere, o que são aquelas coisas?"

Enquanto correm sob o corpo enorme de um invasor morto, eles se deparam com meia dúzia de... criaturas. Se o desenho malformado de um lobo feito por uma criança recebesse forma, músculo e presas, poderia se assemelhar a um desses seres. Suas patas dianteiras e traseiras são densas com poder, seus focinhos manchados de sangue.

"Rastreadores de Bruxas!", Rubi responde. "Você não é mágico, certo?"

Kellan faz uma careta. "Eu, hã, não tenho certeza!"

"Bem, é hora de descobrir", Rubi diz.

Ele espera que ela pare, ou se esconda, ou leve os rastreadores de bruxas de volta para o Cavaleiro Lobo, mas Rubi não faz nada disso. Ela corre em direção ao bando de rastreadores de bruxas, tecendo entre eles, sua capa arrastando-se pelos rostos deles. No momento em que ela os ultrapassa, está exibindo um sorriso tonto sob o capuz.

Fácil o suficiente para ela fazer. Há um frio no estômago de Kellan enquanto ele olha para os rastreadores de bruxas. Os presentes de seu senhor, ou o sangue de seu pai, podem condená-lo caso ele se arrisque.

Mas ele tem o amor de sua mãe para mantê-lo seguro — uma capa grossa que já enfrentou muita coisa até agora. Ele coloca seu próprio capuz. Se Rubi pode fazer isso, Kellan também pode.

Com toda a força que pode, ele corre entre os rastreadores de bruxas reunidos. Ele está no meio do caminho antes de perceber que o grito agudo que ouve está saindo de sua própria boca, um som entre o lamento de um fantasma e o riso de uma criança brincando. Cada batida de seu coração parece roubada e gloriosa. Embora ele não se demore para ver se as criaturas o atacarão, quando ele sai do bando, ainda se vê curvado de alívio.

Eles não o morderam. Nem uma mordidinha. Ele ri com vontade. Ele conseguiu! Ele realmente conseguiu. Seu primeiro contato com a aventura!

Rubi oferece uma mão a Kellan e ele a aceita, olhando para trás pelo caminho de onde vieram. O Cavaleiro Lobo entrou na clareira.

Arte de: Pascal Quidault

"Vamos, vamos...', sussurra Rubi. 'Ele tem que ser mágico!"

Dois jovens, guardando o fôlego como um dragão guarda gemas, encaram o Cavaleiro Lobo. Seu perseguidor, por sua vez, solta outro uivo sem palavras.

Os rastreadores de bruxas respondem. Como um só, suas cabeças se erguem e eles se viram em direção ao Cavaleiro Lobo, seus rosnados ressoando no peito de Kellan. O Cavaleiro Lobo corre para la floresta enquanto os rastreadores de bruxas iniciam a perseguição.

"Acho que estamos seguros', diz ele, ofegante. Ele sorri. 'Você conseguiu, Rubi!"

Ela olha para os rastreadores de bruxas enquanto eles partem. Parece que ela não consegue acreditar que ainda está de pé. "É, acho que consegui", diz ela.

Aliviado, Kellan se vira e percebe a cabana pela primeira vez.

Ele não tem certeza de como nenhum dos dois a viu antes de agora. Talvez seja o que sua mãe queria dizer sempre que falava sobre o caos de uma luta — quando você está ocupado tentando garantir que sairá vivo de algo, nem sempre está prestando atenção ao horizonte. Ainda assim, é difícil não notar. A casa é espinhosa e preta, como se fosse feita de sarças de amora, tendo o dobro da altura das de sua casa. Janelas violetas pulsam com luz do seu interior. Ao redor da casa há um matagal de névoa violeta.

"Rubi", Kellan diz, pegando a mão dela para chamar sua atenção. "Olhe! Aquela é a casa da bruxa, tem que ser."

Basta um olhar para ela concordar com ele. "Vejam só, você tem razão", diz ela. "O que devemos fazer?"

"Aquelas janelas são enormes. Podemos tentar espiar lá dentro e depois descobrir como vamos derrotá-la', diz Kellan. Ele espera que Rubi não peça mais detalhes do que isso.

Felizmente, ela não pede.

Os dois esgueiram-se entre as árvores retorcidas e os arbustos espessos em direção à casa. Carrapatos grudam na capa de Kellan; ele pensa em cada um como um desejo de boa sorte de seu pai. Ele está tão perto de acabar com essa primeira bruxa. Será que Talion lhe dará uma dica? Talvez um enigma? A ideia de descobrir mais é tão tentadora quanto fruta fresca em um dia quente de verão.

O matagal permite que eles fiquem logo abaixo da mais baixa das janelas da bruxa. Aqui na parte inferior, o vidro é grosso, distorcendo as duas figuras na cabana. Uma, pensa Kellan, é a bruxa: ela caminha em um círculo largo ao redor de uma grande escuridão no centro da sala. Fumaça sobe do que quer que seja que ela está guardando. A outra figura está curvada, de costas para a janela.

"Um caldeirão de verdade', Kellan resmunga. "Eu me pergunto para que ela o está usando..."

"Comer pessoas', responde Rubi prontamente. "Ouvi alguns boatos de que havia alguém por perto fervendo ossos de pessoas para fazer ensopado. E aquilo é definitivamente um caldeirão, e ela definitivamente tem alguém amarrado..."

"Bruxas não comem pessoas', diz Kellan. "Minha mãe quase foi uma bruxa, e ela nunca faria nada parecido."

"Você já considerou que talvez seja por isso que ela é quase uma bruxa, e não é uma bruxa?", pergunta Rubi. Ela puxa a capa dele. "Abaixe-se, acho que ela está vindo."

Ela está. O passo da bruxa ao redor de seu caldeirão borbulhante a traz em direção a eles agora. Kellan e Rubi se abaixam sob o parapeito da janela a tempo de evitar seu olhar, mas por pouco. Mesmo através do vidro, seus olhos são perversos e penetrantes, de um violeta não muito diferente do brilho que os cerca.

"Então, qual é o plano?', Rubi pergunta.

Kellan coloca a mão no queixo como se estivesse considerando um. A farsa, tal como é, dura um segundo no máximo. Então ele dá de ombros. "Vamos decidir na hora."

"O quê?', Rubi sibila, os olhos estreitando-se. "Você não pode estar falando sério. Aquilo ali dentro é uma bruxa de verdade!"

"Não vamos conseguir vencer com magia, e não temos armas', diz Kellan. Ele se esgueira pelo canto da cabana, cuidadoso para não tocar nas plumas amaldiçoadas de fumaça pelo chão. "E eu tenho esse novo amigo que me ensinou o valor de improvisar."

"Improvisar é uma coisa, mas isso é procurar encrenca', Rubi diz, seguindo-o de qualquer maneira.

Kellan faz sinal para ela ficar parada. Ele aponta para seus olhos, depois para la janela. "Avise-me quando ela estiver de costas para a porta", diz ele.

Rubi franze a testa, mas permanece sob a janela. Enquanto isso, Kellan encosta o ouvido na porta. De dentro, ele ouve uma canção estridente. Entregue sem muita preocupação com ritmo ou melodia, a cantora está, no entanto, fascinada com o som de sua própria voz.

"Quando a fome me bateu, uma cavaleira apareceu, de coração selvagem e de lata se envolveu..."

Uma cavaleira? Ela vai comer uma cavaleira ?

"Como foi fácil vencê-la, em verdade! Mas comê-la sem quebrar o dente é uma dificuldade!"

O suor escorre pela testa de Kellan. Rubi tinha razão. Esta não é uma bruxa comum — ela não é nada parecida com sua mãe. Se eles não agirem rápido, aquela cavaleira provavelmente vai morrer. Mas o que fazer?

Ele não tem muito tempo para pensar. Do canto, ele vê um borrão vermelho — outra maçã atirada por sua nova amiga. Um bom sinal, pensa ele.

Até que ele ouve a maçã bater contra o metal com um tum .

Um olhar por cima do ombro é tudo o que ele pode se permitir — mas ele já sabe o que vai ver. O Cavaleiro Lobo. Ele já tinha derrotado os rastreadores de bruxas? Sim — aquela é sua silhueta esgueirando-se pelas névoas, coberta de sangue.

Ele não pode deixar Rubi do lado de fora com ele, e não pode deixar aquela bruxa comer a cavaleira. Se ele salvar a cavaleira lá dentro, talvez ela possa lutar contra o que está lá fora. E talvez quando a bruxa se for, o Cavaleiro Lobo simplesmente... desapareça. Era o que acontecia com guardiões conjurados nas histórias, de qualquer forma.

Kellan arranca um carrapato de sua capa. "Pai, se estiver ouvindo", diz ele, "por favor, me dê coragem suficiente para fazer isso."

Ele não espera por uma resposta, porque sabe que não pode. Ele apenas tem que ter fé que funcionou.

Kellan abre a porta, silencioso e rápido. Como um rato esgueirando-se pelo domínio de um gato, ele corre para o centro da sala onde a bruxa continua sua canção horrível. Amarrada a uma vara perto do caldeirão borbulhante está uma mulher robusta vestida com armadura, seu braço direito feito de madeira sólida. Atordoada e delirante, ela cruza os olhos com ele.

Kellan consegue ver a esperança nela quando ela faz isso.

"Ah, brava cavaleira, o que farei? Ferve e borbulha, caldo e mistura — ah, brava cavaleira, um ensopado farei!"

A bruxa está tão ocupada mexendo sua poção de cheiro fétido que ainda não o notou. Ela está diante do caldeirão, apontando um dedo torto para la cavaleira. Por uma vez ela abandona o tom de cantoria.

"Mas que tempero usar, hm? Suponho que você não saiba com o que fica mais saborosa, sabe?"

"Morra no fogo", a cavaleira cospe. Ela olha para Kellan, depois lhe dá um aceno discreto.

A bruxa, no entanto, vira-se de volta para o caldeirão. Ela balança a cabeça e depois enfia a mão no bolso. "Isso não é muito gentil. Preciso deste fogo para cozinhar você. Há uma arte nisso, sabe. Não posso simplesmente jogar qualquer coisa lá dentro e esperar que acabe virando comida fina."

O que quer que esteja naquele saco que ela despeja faz Kellan querer vomitar, mas ele mantém o controle. Ele tem um trabalho a fazer — e tem uma abertura aqui. Como os carneiros de sua fazenda, ele abaixa a cabeça e investe.

"Você é quem vai ser cozida!', Kellan responde.

Arte de: Marta Nael

Ele ouve a bruxa uivar quando colide com ela, e a ouve gritar enquanto ela cai no caldeirão, mas ele tenta não pensar nas implicações de nada disso. Uma lufada de fumaça preta sobe, o cheiro tão acre que traz lágrimas aos seus olhos. Kellan corre em direção à cavaleira. Haverá tempo para pensar no que ele fez mais tarde — agora, ele precisa garantir que Rubi esteja segura. E a melhor maneira de fazer isso é libertar esta mulher.

"Você consegue lutar?', ele pergunta, as mãos trabalhando nos nós em volta dos pulsos dela. Um dos braços dela, ele percebe, é feito de uma madeira estranha e flexível que se esforça exatamente como carne e músculo.

"Grrkh... Se você me trouxer... meu martelo."

Não é uma resposta que o encha de confiança, mas é o que ele tem. As cordas caem. Ele varre a bagunça caótica da cabana em busca de um martelo de guerra — ali. Está encostado em um balcão coberto por todo tipo de vísceras e sangue coalhado, com potes rotulados "Olho de Tritão" e "Dedo de Sapo".

Enquanto ele corre para o martelo, Rubi entra correndo pela porta. "Ele está quase aqui!"

"A cavaleira vai nos salvar', diz Kellan. Ele não consegue levantar o martelo, mas pode arrastá-lo. "Ela ainda pode lutar!"

Ele entrega o martelo para a cavaleira, que se levanta.

Ou tenta.

Mas Kellan aprende aqui uma lição importante: nem todos os cavaleiros podem ser heróis o tempo todo. Esta está exausta demais, espancada demais. Ela desaba de volta em seu assento ignóbil.

O coração de Kellan está em algum lugar na garganta quando o Cavaleiro Lobo entra pela porta. Coberto de sangue, sua espada recém-usada. Eles tinham vindo de tão longe apenas para — ?

"Levante-se!', diz Kellan, empurrando a cavaleira. "Você consegue, vamos! Você costumava defender o Reino!"

"Isso foi há muito tempo', a cavaleira resmunga. No entanto, mais uma vez ela tenta se levantar — e mais uma vez ela cai.

O Cavaleiro Lobo para na soleira.

Rubi atira um pote de algo fétido. O barro se estilhaça contra a armadura dele. Ele se vira para ela.

"Rubi', brada o Cavaleiro Lobo. "Eu finalmente te encontrei."

Os olhos de Rubi se arregalam. Ela sai de seu esconderijo, abaixa o capuz.

O Cavaleiro Lobo tira o elmo. Por baixo está o rosto de um lenhador grisalho, sua barba espessa e seu cabelo desgrenhado — mas seus olhos são gentis e seu sorriso caloroso. Ele abre os braços. "Rubi, sou eu."

"Peter!', Rubi grita. Ela corre até ele, e ele está lá para recebê-la, levantando-a e girando-a antes de colocá-la no chão. "O que aconteceu? Você está bem?"

"Não sei. Eu nunca tinha visto este lugar antes de hoje. Saí para caçar e houve aquela canção horrível', diz ele. "Esta é a cabana de uma bruxa, não é? Ela deve ter me enfeitiçado. Sinto muito por ter assustado você, mas estou feliz por você estar segura."

Rubi o abraça. "Não se preocupe', diz ela. "Eu te perdôo por isso se você me perdoar por atiçar os rastreadores de bruxas contra você."

Ele bagunça o cabelo dela. "Eu não esperava menos de você. Você sempre foi a esperta da família', diz ele. Então, ele se vira para Kellan e a cavaleira. "Você aí — garoto. Você ajudou minha irmã, não ajudou? O que quer que me peça, apenas diga, e eu concederei, se estiver ao meu alcance."

"Ela fez a maior parte do trabalho', diz ele. "Mas... se quiser ajudar, eu tenho que levar o caldeirão para o meu suserano. Eles disseram que eu precisava mostrar a eles que eu tinha..."

"Não diga mais nada. Você precisa de alguém para carregá-lo, e eu o farei', diz Peter. Seus olhos recaem sobre a cavaleira ferida e ele faz uma careta. "Devo ter lhe causado um grande mal. Minhas desculpas."

A cavaleira geme. "Não foi uma luta justa, entre você e aquela velha."

"Fique aqui. Assim que tivermos levado o caldeirão ao seu destino, Rubi e eu poderemos fazer um bálsamo curativo para você. Há muitos ingredientes aqui, e acho que me lembro de algo sobre herborismo."

Se a cavaleira tem algum contra-argumento, sua mente está confusa demais pela dor para fazê-lo.

Peter recruta a ajuda de Rubi e Kellan com o caldeirão; os dois juntos seguram um lado, enquanto ele levanta o outro, suportando a maior parte do peso. Kellan tenta não pensar no que está balançando lá dentro. Juntos, eles conseguem movê-lo pela soleira — mas, em vez das névoas violetas, a corte de Talion os recebe do outro lado.

Desta vez, o Senhor Bondoso não se torna visível. Kellan sabe que eles estão presentes apenas quando uma música familiar toca ao redor deles. Não há cortesias desta vez: seu conselho é rápido e direto ao ponto.

"Hylda é a próxima bruxa que você procura. Sua magia é grande, sua habilidade ainda maior; ela se escondeu dos meus olhos. Mas consulte o espelho Indrelon, e poderá encontrá-la . Arrancado do Castelo de Vantress por Gerra Grandsquall, ele jaz agora longe de seu lar. Não se preocupe, minha sabedoria poupará você do trabalho de caçá-lo. Um pé de feijão cresce a menos de meio dia de viagem daqui. Suba por ele e encontrará o espelho em seu topo ."

Mal terminaram de falar e a corte desaparece, esquecida como um sonho. O trio está novamente diante da cabana.

Rubi está olhando para ele. "Seu suserano é o rei feérico', diz ela.

"Isso... isso te incomoda?', diz Kellan. "Eu ia perguntar se você queria vir. Eu realmente poderia usar sua ajuda. De vocês dois."

"Eu não seria de nenhuma ajuda para você, ferido como estou', diz Peter. "Não estarei em condições de lutar por dias ainda."

Rubi olha de Kellan para Peter e de volta. Ela suspira. "Você me ajudou a encontrar meu irmão, então eu vou ajudar. Mas vamos descansar um pouco. Podemos cuidar dos ferimentos da cavaleira e descobrir o que vamos fazer."

Os dedos de Kellan estão tremendo. "Mas... você odeia o fato de eu estar trabalhando com os feéricos?"

Ele se surpreende com o quanto o deboche de Rubi o deixa à vontade. "Você está brincando? Isso só significa que você é mais corajoso do que eu pensava."

E quanto a isso? Com isso, ele consegue viver.

Episódio 3: Dois Grandes Banquetes

Rowan,

Espero que esta carta a encontre...

Não posso dizer que a encontrará bem quando sei que você não está. Você está zangada, frustrada. Eu entendo. Nada mais faz sentido.

Desde que você partiu, preocupei-me com você todos os dias. Perder o controle na montanha, fugir — você está tentando ajudar, mas está se matando aos poucos. O que estamos enfrentando não é algo que alguém deva encarar sozinho. Somos família.

Por favor, volte para casa. Sei que você está sofrendo, mas juntos, podemos encontrar algum jeito de ajudar.

Sempre seu irmão,

Will

Rowan lê a missiva uma vez. A caligrafia caprichada de seu irmão a encara de volta na página. Eu sei que você está zangada. Eu entendo. Podemos encontrar algum jeito de ajudar.

Se ele entendesse, estaria aqui. E se quisesse ajudar, também estaria aqui. Em vez disso, ela se senta sozinha em uma taverna de Wealdrum. O mensageiro, vestindo a libré dos Kenrith, aguarda por uma resposta.

Ela tenta pensar em uma. Tenho razão em estar zangada. Nosso mundo está desmoronando ao nosso redor e não temos respostas claras. Você quer ficar sentado em casa e esperar que elas apareçam. Estou cansada de esperar. Por que isso faz você ter tanto medo de mim?

O mensageiro se aproxima. Rowan ainda tem uma página em branco diante de si. Ela a dobra em três e a entrega ao servo de seu irmão. "Entregue isto a ele e diga-lhe para vir me procurar se estiver falando sério."

Um sorriso seco. Um aceno. O mensageiro parte.

Rowan volta para sua bebida, vendo nela seu próprio reflexo. O rosto que tanto assustara Will na montanha.

Não parece tão assustador para ela.

O que resta de Ardenvale aguarda a cavaleira andante. Um véu de névoa cobre as colinas e vales, ocultando os corpos de metal sob ele. Se ela der um passo em falso, cairá de seu cavalo em uma trincheira de phyrexianos.

Conforme se aproxima do castelo, ela vê cada vez mais o redemoinho violeta do Sono Maldito. Quando enfim para diante dos portões estilhaçados, precisa tomar muito cuidado onde pisa.

Mas Rowan não toma muito cuidado.

Arte de: Magali Villeneuve

Uma explosão de relâmpago abre um buraco nos grandes portões de carvalho. Ela atravessa, com o cheiro de madeira queimada impregnado em seu manto, e sobe os degraus cobertos de violeta.

Ela sobe apenas cinco degraus antes de ver os cavaleiros.

Eles são dignos, embora suas armaduras ostentem a pátina do mau uso: cada um tão forte e robusto quanto da última vez que Rowan os vira. Pois ela conhece esses elmos, essas armaduras de placas, essas pessoas. Seus companheiros estão com armas em punho.

O pior de tudo: cada um deles está adornado pela névoa do Sono. Como os fios de um marionetista invisível, ela sobe de cada membro e arma. Embora os próprios cavaleiros não se movam, a névoa é astuta o suficiente para movê-los: uma flecha disparada por um de seus antigos instrutores de arquearia erra por um triz.

Esta guerra continuará tirando coisas dela? Seu peito dói.

"Sou eu", ela grita para eles. "É a Ro! Acordem!"

Outra flecha disparada, esta derrubada em pleno voo. O nó na garganta de Rowan cresce. Lutar parece ser a única opção.

Empunhando sua lâmina, ela começa sua subida em meio ao combate.

Sir Saxon, um patrulheiro de coração generoso, e Sir Joshua, o Domador de Feras, costumavam passar todas as suas horas de vigília juntos. O mesmo acontece agora que o sono os levou. Saxon brande seu machado de osso, um golpe que ela precisa aparar; Joshua aproveita a brecha para desferir seu martelo de guerra em sua perna.

A dor inflama sua visão. A velha dor de cabeça retorna, como se tivesse sido convocada.

Rowan se afasta de Joshua. Mirando nos pés dele e de Saxon, ela canaliza outra explosão. Ambos os homens são derrubados, o metal estrépita enquanto eles atingem a parede próxima. O Sono mantém seus corpos moles — neste caso, algo bom. Manter-se mole é a melhor forma de evitar ferimentos em momentos assim.

Sir Joshua lhe dissera isso.

Com a cabeça latejando e tristezas pesadas como uma coroa, ela se esquiva de outra flecha que se aproxima. Espadas, martelos, foices e clavas erguem-se para enfrentá-la na escadaria. Seus antigos companheiros fazem o melhor que podem para quebrar seus ossos. Esquivar-se deles é o melhor que ela pode fazer — mas isso não bastará em todos os casos. Mais de uma vez, ela é forçada a liberar outra explosão. Cada uma deixa um rastro maior que a anterior.

E cada uma parece mais emocionante.

Ela gostaria de negar, mas essa é a verdade. Mesmo enquanto se preocupa com seus amigos, sente seu sangue cantar com a melodia que esse novo poder lhe trouxe. E isso, por sua vez, torna mais fácil canalizá-lo. Não importa quantas vezes diga a si mesma que isso é o bastante, ela precisa evitar perder o controle...

É fácil demais fazê-lo.

Quando ela chega ao topo dos degraus, os cavaleiros jazem repousando abaixo dela. Ela olha para a ruína carbonizada que um dia foi o castelo.

E ali ela encontra mais cavaleiros esperando. Sob estandartes estrangeiros eles aguardam, armas em punho, cabeças voltadas para ela. Há meses ninguém vive no Castelo de Ardenvale, no entanto, esses cavaleiros vestem seus trajes de gala em vez de suas armaduras. Cada um está vestido para encantar alguém. Um luxuoso tapete violeta conduz além de um véu de sombras oscilantes.

Empunhando sua espada, Rowan avança. Faíscas crepitam em sua mão e ao longo do fio de sua lâmina. Se alguém se aproximar — bem, não é melhor encerrar as lutas o mais rápido possível? Não é essa a atitude misericordiosa?

Arte de: Nestor Ossandon Leal

Ela espera que os cavaleiros a ataquem como fizeram na escadaria. Eles o fazem, embora não tão diretamente. Em vez de investirem contra ela abertamente, eles valsaram em sua direção, alguns segurando parceiros em suas mãos livres. Mesmo os piores dançarinos se movem com uma graça sobrenatural pelas ruínas do Castelo de Ardenvale. Os casais se separam apenas o tempo suficiente para golpeá-la antes de retornarem à sua dança estranha.

Evitar uma estocada a lança no caminho de um corte vertical; abaixar-se para evitá-lo a deixa exposta ao balanço de uma alabarda. Ela ergue um braço para bloquear, apenas para que alguém segure sua mão e a puxe para mais fundo nas celebrações sinistras. Dezenas de cavaleiros se comprimem, um jardim turbulento de adormecidos. Rowan não consegue se mover sem tocar em outra pessoa. Sua espada é arrancada de sua mão; sua respiração falha. A indecisão é um pelourinho.

A multidão a leva adiante, cada par de dançarinos uma engrenagem. As espadas estão chegando, ela sabe que estão, mas precisa encontrar uma maneira de passar.

Ela estende a mão livre em direção ao véu oscilante—

— apenas para uma palma branca e pálida pressionar a sua. "Bem-vinda à Corte da Rainha Ardente, Rowan Kenrith."

De repente, a dança silenciosa cessa. Então, como um só, todos se ajoelham.

O parceiro de outrora de Rowan permanece de pé. Um ser de beleza estranha e terrível, com o rosto encovado como um cálice, a observa. Fumaça sobe das cavidades onde deveriam estar seus olhos. Uma boca cruel sorri enquanto a figura inclina a cabeça. "Estivemos esperando por você."

Rowan busca sua espada por hábito — apenas para lembrar que a perdeu em meio à multidão. Ela não consegue avistá-la entre os que estão ajoelhados. "Você é Ashiok. Já ouvi falar de você."

Ashiok apenas sorri, revelando uma boca de dentes pontiagudos.

"O que você está fazendo aqui?" Ela se refere a Eldraine ou ao Castelo de Ardenvale? Não tem certeza.

"Sou amigo e conselheiro daquela que você procura aqui. Ela fez um trabalho extraordinário até agora." Ashiok desliza por ela; o ar fica mais frio onde houve o toque. Com um gesto simples atrás dela, um dos cavaleiros apresenta sua espada. Ele a estende para ela, repousada sobre as palmas das mãos. A figura aperta seu ombro. "Vá em frente. É isto que você estava procurando, não é?"

Ela já vira essa cena antes. Seu pai e sua mãe sagrando cavaleiros os mais recentes dignos. As coroas em suas cabeças. A coroa que vira em sua visão.

Rowan sente os pelos da nuca se arrepiarem. Ela pega a espada. "Deixe estas pessoas irem", diz — mas ainda não ergue a lâmina contra a figura misteriosa.

"Tem certeza de que é isso que você quer?", perguntam.

"Tenho. Eles são meus amigos e já sofreram o suficiente sem a sua intromissão", diz Rowan. "Se você pode controlar os adormecidos, você é quem nos amaldiçoou, não é?"

O sorriso revela duas fileiras de dentes pontiagudos. "Quem a amaldiçoou jaz ali, além do véu. Deseja falar com ela?"

Rowan range os dentes. Ela não espera que a figura a guie, mas parte por conta própria. Quando chegam à névoa cinzenta, é a figura quem a afasta para ela.

Do outro lado há uma mesa de banquete farta, com uma bela mulher vestida de preto à cabeceira. A mulher ergue um cálice em sua direção — na outra mão, Rowan vê, está uma maçã de vidro com fios violetas translúcidos saindo dela. Magia. "Rowan Kenrith. Um prazer, e uma honra, finalmente conhecê-la. Alguém já lhe disse que você se parece exatamente com sua mãe?"

A figura sem rosto puxa uma cadeira para ela. Rowan a ignora, caminhando direto até a mulher. "Quem quer que você seja, tem muita coragem. Aquela mulher não tem nada a ver com isso", diz ela. Ela ergue a espada acima da cabeça e a desce em um golpe poderoso. O fato de parar a um milímetro do rosto da mulher é prova de seu novo controle. Rowan deseja nada mais do que livrar o mundo dela — desta maldição. "Você me chamou aqui apenas para fazer piadas doentias?"

A mulher não faz menção de detê-la, nem mesmo de se levantar. Ela toma um gole de seu cálice. "Querida Rowan, eu a trouxe aqui porque admiro o fogo dentro de você."

Um cavaleiro está preparado para enfrentar todo tipo de arma no campo de batalha: espadas, piques, flechas, martelos. O que eles não estão preparados — e, de fato, para o que Rowan nunca treinou — é para uma sinceridade tão desarmante. Seu aperto vacila. "O quê?"

A mulher sorri. Ela coloca seus dedos bem cuidados sobre os nós dos dedos de Rowan, afastando suavemente a espada de seu caminho. "Os outros têm medo de você, não têm? Seus companheiros. Seu povo. Até seus irmãos."

Rowan engole em seco. "Você não sabe nada sobre eles."

"No entanto, você não me disse que estou errada", diz a mulher. Ela nunca desvia o olhar — seus olhos são densos como hidromel. "A família do seu pai diz que você mudou. Seu irmão mal a reconhece. Você está sentindo uma dor terrível e, no entanto, tudo o que ele parece conseguir fazer é tentar 'consertá-la'. Não é verdade, querida?"

Rowan abre a boca. Não consegue forçar nenhuma palavra a sair.

A mulher se levanta. Rowan permite. Assim como sua mãe fizera tantas vezes, ela afasta uma mecha de cabelo do rosto de Rowan. "Eu sei como é ter sua família virando as costas para você. Mas eu não farei isso."

Por que parece... Por que parece assim? Ser vista desta maneira? A respiração de Rowan está mais instável do que ela gostaria de admitir.

"Você tem trabalhado tanto para manter todos seguros. Desde o ataque, é só nisso que consegue pensar, em cuidar do Reino, da família do seu pai. Garantir que ninguém a machuque nunca mais", diz a mulher. Ela se senta novamente. "Você queria saber por que eu a trouxe aqui. Por que criei o Sono Maldito. Assim como você, eu queria manter meu povo seguro. Os invasores não tinham esperança de resistir a algo assim. Que tenha se espalhado para os outros é... lamentável, mas mesmo nesse infortúnio, descobri algo belo. Gostaria de saber o que é, Rowan Kenrith?"

Sua boca ficou seca, sua dor de cabeça martelando mais forte do que nunca. Se essa mulher quisesse Rowan morta, certamente ela estaria. E se o Sono Maldito realmente tivesse surgido como uma forma de deter a invasão...

Sua mãe a incitando a se apressar, seu pai firmando os pés para uma resistência final sem esperança.

E se Rowan pudesse ter impedido? E se pudesse ter colocado os invasores para dormir, como essa mulher fizera?

"Eu gostaria", diz ela. "Eu gostaria de saber."

O sorriso da mulher é quente como vinho com especiarias. Ela se volta para o estranho. "Ashiok, se me permite?"

Um piscar de olhos, um momento de escuridão, nada mais que isso. Quando ela abre os olhos novamente, seus pais estão ao lado da mulher. Lá está seu pai, inteiro como estivera na visão; sua mãe, radiante e orgulhosa. Rowan, para quem as palavras faltaram, corre para os braços de seus pais.

Apenas para que eles desapareçam depois que ela fecha os braços ao redor deles.

O lamento de Rowan não é o de uma cavaleira, nem o de uma mulher adulta — é o lamento de uma criança carregada para fora de uma cabana, jovem demais para entender o que acabara de acontecer. Quão fria ela se sente, parada onde eles estavam momentos atrás!

"Pareceu real, não pareceu?", pergunta a mulher.

Rowan consegue apenas assentir, encarando a mão. Um pouco do calor deles ainda adere à sua pele. "Foi... foi você quem enviou a primeira visão?"

"Com a assistência do meu próprio mentor, sim", responde a mulher.

"Meu pai disse que eu encontraria meu sangue aqui", diz Rowan. Sua voz começa a vacilar. "Você disse que eu me parecia com minha mãe. Você não se referia a Linden."

O sorriso da mulher é estranhamente nostálgico. Rowan percebe o porquê — ela sorri exatamente da mesma maneira. "Não, eu não me referia."

"Aquela mulher matou a mim e ao meu irmão. Ela ia beber o nosso sangue", diz Rowan. Cada palavra é um corte.

"Minhas irmãs nunca foram conhecidas por sua sabedoria — apenas por sua ambição", diz a mulher. "Sua mãe era a mais cruel de nós. Não se engane, seu pai agiu certo ao derrubá-la, e Linden agiu certo ao salvá-los. Mas isso não apaga a magia em seu sangue, Rowan. Você pode usá-la para algo bom. Você tem a oportunidade de redimir nossa linhagem, de conceder ao Reino uma benção sem igual."

Raiva em seu coração. Ela olha para as mãos, já cobertas de sangue. Por quanto tempo ela negara aquela parte de si? A explosão na montanha. Sua dificuldade de controle. E se o sangue da bruxa estivesse em sua essência? E o sonho que aquela mulher lhe concedera... há quanto tempo Rowan não era tão feliz?

"Por que eles nunca me contaram sobre você?"

A mulher estala a língua. "Imagino que não queriam que você seguisse nossos passos. Mas isso pouco importa agora."

Rowan engole em seco. A tempestade dentro dela é quase demais para suportar.

"Todos que você viu no caminho até aqui — cada sonhador no Reino — experimenta a mesma coisa", diz a mulher. "O que quer que tenham perdido retornou para eles. Em salões alegres eles celebram a vitória do Reino, cercados por todos aqueles que amam. Campos pitorescos longe de todo o tumulto, o colo de um companheiro amado — onde quer que desejem estar, é lá que estão. Lá permanecerão. Sem preocupações, sem medos."

"As pessoas precisam de mais do que sonhos", Rowan consegue dizer. No entanto, soa vazio até mesmo dizer tal coisa. Dada a oportunidade de passar a eternidade em um sonho com seus pais... Poderia esse seu sangue amaldiçoado conceder isso a todo o Reino?

"Alguns precisam. Eles podem permanecer acordados. Mas para aqueles que buscam escape, bem, encontrei um jeito de conceder isso a eles. Seus corpos ainda servem à minha vontade, mas suas mentes estão em outro lugar."

Rowan respira fundo para se acalmar. "O Sono não escolhe quem leva. Você não está abordando um por um e perguntando. Seja qual for a sua vontade—"

"Minha vontade é a mesma que a sua, Rowan. Eu quero manter o Reino seguro. Eu quero liderá-lo. Eu quero poder", diz a mulher. "Poder para repelir ameaças, poder para garantir meu próprio futuro. Nada neste mundo é tão certo, tão vital, quanto o poder. Com poder, você pode comandar lealdade, tornar-se mais forte, suportar qualquer desafio que surja em seu caminho. Para tomá-lo, você precisa de coragem e conhecimento de seus inimigos; mantê-lo lhe confere apenas mais poder. Você percebeu isso, não percebeu? É a razão pela qual ninguém respeita seu irmão — e a razão pela qual temem você. Você tem muito da minha irmã em você para o gosto deles. Mas eu conhece seu potencial. Posso estar lá por você, da maneira que nunca estive por ela."

Os olhos de Rowan caem para o chão — para os azulejos que ela ajudara seu pai a escolher durante a última reforma do castelo. Ela gostava dos desenhos de raios de sol.

As pessoas respeitavam seus pais. Eles eram bons guerreiros, de bom coração, e haviam conquistado seus lugares.

O que Will fizera? Ele tem um bom coração, mas sem o resto, será que alguém...?

E manter as pessoas felizes não é a coisa mais gentil que ela poderia fazer? Sem falar em tudo o que essa mulher — sua tia? — fizera pelo Reino. Antes de vir para cá, Rowan achava que o Sono era uma maldição, mas agora vê que bênção ele pode ser. O Reino perdeu tanto. Garantir que ele permaneça íntegro não é a coisa certa, a coisa galante? E enquanto seus súditos dormem, ela pode zelar pelo bem-estar deles. Com um exército de adormecidos como este, eles poderiam...

Eles poderiam unir o Reino. Eles poderiam transformar a maldição de seu nascimento em algo belo.

"Você entende, não entende?", diz a mulher. "Eu sabia que entenderia."

Rowan aperta os olhos. Ela pode consertar. Pode consertar tudo, se ao menos pudesse... "Você pode... pode me ensinar? A trazer paz às pessoas dessa maneira, a mantê-las seguras? Pode me ensinar como caminhar entre os planos novamente?"

"A centelha se foi", diz Ashiok, sua voz um sibilo longo e arrastado. "Para você e para muitos outros."

A mulher se levanta, sorrindo. "Mas o resto será um prazer para mim. Todo governante precisa de um herdeiro." Ela também abre os braços. "Meu nome é Eriette, querida. Bem-vinda ao lar."

Enquanto Rowan deita a cabeça no ombro de Eriette, enquanto se permite relaxar pela primeira vez em meses, ela se pergunta:

Há quanto tempo ninguém a entendia assim?

Arte de: Mila Pesic

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"Tudo o que você precisa fazer é evitar olhar para baixo."

"Fácil para você dizer, você já fez isso antes!", grita Ruby. No meio do caminho como estão, Ruby está agarrada ao pé de feijão como se ele lhe devesse dinheiro. De certa forma, deve — Peter não conseguiu subir na árvore devido aos seus ferimentos, mas deu a eles todas as suas economias para que pudessem contratar um guia.

Aquele guia, Troyan, está bem à frente deles. Ele está de pé em uma folha do tamanho de um piquete, observando Kellan e Ruby subirem. "Isso não é verdade. Nunca escalei um pé de feijão, nem uma vez sequer."

"Você disse que era um alpinista especialista", grita Kellan. O ar está rarefeito o suficiente para que lhe doa fazer isso. Troyan parecia um escalador de pés de feijão, de pele azul e elegante, vestido em tons vibrantes de verde e azul, com alguma criatura mítica estranha de braços demais pintada em seu casaco. A placa que ele carregava dizia até "viajante e aventureiro profissional". Essa fora toda a razão de o terem contratado! Bem, isso e o quão confiante ele parecera quando lhe perguntaram se sabia como subir no pé de feijão.

"E eu sou", diz ele. "Escalei muitos pináculos em meus dias, venci todas as competições que existiam. Um pé de feijão é uma agradável mudança de ritmo."

Kellan franze a testa. Seus braços doem, seus ombros latejam e ele está achando mais difícil respirar, mas, de alguma forma, Troyan está indo muito bem, apesar de estar mais alto. "Mas... nós contratamos você... para nos ajudar!"

"É", diz Ruby. "Faça o seu trabalho!"

Troyan suspira. "Tudo bem, tudo bem, vocês têm razão", diz ele. Ele se senta na borda da folha e coloca sua mochila pesada no colo. De dentro, ele retira dois frascos de vidro cheios de um líquido oleoso e viscoso. A rolha está coberta de verrugas bulbosas. "Eu estava guardando estes para um momento difícil. São difíceis de encontrar por aqui, sabem. Mas já que estão me pagando tão bem..."

Arte de: Lucas Graciano

"Não pareça tão arrogante com isso", repreende Ruby.

"Acho que posso ceder dois", conclui Troyan. "Mas vocês terão que chegar aqui primeiro."

Ruby geme, e Kellan a acompanha. Ser um herói não é tudo o que dizem. Mas ele tem que admitir, está curioso para saber exatamente o que aquelas poções fazem.

Ele dá tudo de si. Quinze minutos de esforço de queimar os músculos e ele alcança o topo da folha. Troyan tem a gentileza de ajudá-lo a subir. Ele atira o frasco para Kellan. Com a tampa removida, bolhas flutuam sobre sua pele. Uma pousa em seu nariz. Quando ela estoura, ele sente cheiro de água de pântano e um leve formigamento na garganta. Kellan não consegue evitar bebê-lo mais do que uma ovelha consegue evitar pastar. Ele o entorna em um instante sedento.

Sua língua é a primeira coisa a mudar. O formigamento dá lugar a uma sensação de alongamento e, logo, ela se desenrola para fora de sua boca como o estandarte desfraldado de um cavaleiro. Em seguida, vem sua pele, viscosa e escorregadia; depois, uma espécie de energia acumulada em suas pernas. Quando ele abre a boca, tudo o que sai é um coaxar gorduroso. Kellan ri baixinho.

"Muito legal, hein? Não se preocupe, é apenas temporário", diz Troyan. Ele gesticula para o ar aberto acima deles. "Vá em frente. Pule. Só não esqueça de prestar atenção na aterrissagem."

Ruby's hand crests the leaf. Kellan helps her up. On seeing his now bulbous eyes, his lolling tongue, she starts. "What did you do to my friend?" she asks Troyan. -> A mão de Ruby alcança a folha. Kellan a ajuda a subir. Ao ver os olhos agora bulbosos e a língua pendurada dele, ela se assusta. "O que você fez com o meu amigo?", pergunta ela a Troyan.

"Ruby, não se preocupe, estou bem", diz Kellan. Ele sorri para reforçar o que disse. "Acho que talvez possamos pular todo o caminho até lá se bebermos isto."

Ruby olha desconfiada para os dois, um de cada vez. "Você está me pedindo para acreditar em muita coisa aí."

Kellan ergue o outro frasco. "Ele tem sapificação em uma garrafa, acho que podemos confiar nele desta vez", diz ele.

"Se vocês pretendem chegar lá em cima, precisam começar a pular", interrompe Troyan.

Ruby suspira. Ela olha para o frasco e balança a cabeça. "Eu vou me segurar em você, Kellan. Se essas coisas são tão difíceis de encontrar, será melhor economizá-las. Vire-se."

Kellan faz o que lhe é dito. "De onde você tirou isso, afinal? Alguma bruxa as fez para você?" Uma pausa enquanto Ruby sobe em suas costas. "Espere. Você não é fada, é?"

Troyan ri. "Não, no, de jeito nenhum. Pague-me um pouco mais e talvez eu lhe conte como os encontrei."

"Pão-duro", resmunga Ruby.

"Eu ouvi isso."

Kellan ri. No alto onde estão, ele não tem medo de olhar para baixo, não quando se sente assim. Seja pela graça do relâmpago ou por algum outro mecanismo invisível, ele se sente vivo. Quando foi a última vez que esteve rodeado de pessoas tão amigáveis? Pessoas que não eram sua família?

"Pronto?" ele pergunta.

"Pronta."

Kellan, o rapaz da fazenda de Orrinshire, salta em direção ao céu — e o céu se abaixa para encontrá-lo. Bolhas de água do pântano brotam de seus pés, impulsionando-os cada vez mais alto. Um coaxar atinge seus ouvidos apenas depois que eles atravessam as nuvens. Do outro lado?

Um castelo iluminado pelo luar aguarda.

Arremessar-se em direção ao solo é menos assustador quando o chão está próximo. Kellan aterrissa com apenas um pequeno tombo; ele cai de cara, mas Ruby permanece ilesa. Ela lhe estende a mão enquanto admira a fachada brutal e imponente do castelo. "Estamos mesmo aqui, hein?", diz ela. "Stormkeld."

"É enorme", diz Kellan. É difícil evitar que sua boca fique aberta diante do tamanho colossal daquilo. Gigantes são grandes, mas, até agora, ele nunca tivera indicação de o quão grandes eram. Ele aponta para as grandes portas, cada uma do tamanho de uma torre. "Olhe, provavelmente podemos entrar bem por baixo das portas."

"Eles não devem receber muitos visitantes humanos", diz Ruby. "Devemos ser como camundongos para eles, vindo para roubar toda a sua comida."

"Só se nos pegarem", diz Kellan. "Vir à noite foi uma boa ideia. Aposto que todos estão dormindo."

Ruby sorri e começa a caminhar pela trilha. Cada laje é do tamanho de um cavalo, exigindo vários passos para ser atravessada. "Me ouvir é sempre a decisão certa, herói", diz ela.

He shuffles to keep up. "Shouldn't we wait for Troyan?" -> Ele se apressa para acompanhar. "Não deveríamos esperar pelo Troyan?"

"Deixe que ele quebre outro recorde subindo até aqui se quiser", desdenha Ruby. "É o que ele merece!"

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Leva mais de uma hora de caminhada para atravessar o pátio. Troyan os alcança no meio do caminho. Suado e exausto, mas ainda assim destemido, o trio segue em direção à entrada.

Até que o chão começa a tremer sob seus pés.

Ruby se agacha, Kellan esconde a cabeça. Apenas Troyan permanece de pé, erguendo os dedos, balançando-os suavemente de um lado para o outro. Ruby o puxa para baixo pela manga. "Não sei se existem terremotos aqui em cima, mas se existirem, você precisa se segurar!"

Troyan balança a cabeça com um sorriso sarcástico. "Tente contar os tremores."

Revirando os olhos e soltando um suspiro, Ruby protesta, mas faz o que foi pedido. Todas as suas frustrações desaparecem quando ela ouve os primeiros acordes de música distante e a compreensão surge. "Hã."

Kellan, ainda não iniciado no mundo refinado, tenta seguir os passos dela sem sucesso. Os tremores paravam e recomeçavam frequentemente — mas por que estavam contando? Suas sobrancelhas se franzem enquanto ele tenta entender.

Ruby cobre a mão dele, que contava, com a sua própria. "Eles estão dançando", explica ela.

"Valsando, para ser mais específico", acrescenta Troyan. "O que, infelizmente, significa que estão acordados."

Valsando? Kellan não tem ideia do que seja isso, mas uma vez pegou sua mãe e Ronald dando passos largos e girando pela casa. Talvez seja assim.

"Se eles estão dançando, não vão nos notar", diz ele. "Ainda podemos entrar de fininho."

A essa altura, ele já sabe o que aquele resmungo de Ruby significa — ela não tem certeza, mas não vai recuar do desafio. "Vamos torcer para que sim", diz ela.

Eles caminham mais, até a própria entrada, um grande portão que se abre apenas para os seres mais minúsculos no pé de feijão. Eles passam sob o teto de madeira. O mundo que os aguarda do outro lado deixaria qualquer rei do Reino na miséria: belos arcos de mármore mais altos que qualquer parapeito, uma cúpula de céu matinal acima, música barulhenta que ressoa em seus pulmões e cálices dourados contendo poços cheios de vinho. O mais impressionante de tudo são os próprios gigantes. Seja vestidos com gibão e cota de malha ou vestidos de tafetá, eles compõem uma bela visão. E estranha, se todos os rumores sobre gigantes forem verdadeiros.

"Eles não deveriam estar fazendo coisas de gigante?", pergunta Ruby. Embora esteja gritando, é difícil ouvi-la por causa da música.

"Talvez essas sejam coisas de gigante", diz Kellan. Quando os tremores vêm, ele pula junto com eles. No fundo da mente, ele se pergunta se seu pai tem asas — se ele as terá também quando ficar mais velho. Ele espera que sim.

"O garoto está certo. Não vejo por que eles não podem desfrutar de uma celebração de vez em quando. Este lugar certamente precisa disso depois do que passou", diz Troyan.

"Bem, eu não disse... É só que as outras pessoas não...", Ruby começa, mas termina com um suspiro irritado. "Tanto faz. Pelo menos eles não nos notaram. Kellan, você sabe onde eles poderiam guardar um espelho?"

De fato, os gigantes não notaram os aventureiros, e isso é ainda pior para eles. Embora haja um padrão nas danças, nem todos os gigantes são dançarinos graciosos. Suas melhores previsões de onde será o próximo passo às vezes falham. Mais de uma vez Ruby puxa Kellan do alcance da destruição; mais de uma vez, Troyan faz o mesmo por ela.

Kellan's heart is hammering again. This is dangerous. Of course it is. But with the music playing, and the laughter around him, it's sort of fun, too. Back home he's the smallest boy in the village—but here, they're all small, and his agility is a boon. He darts from step to step, his eyes full of wonder, looking for the gleam of silver. "Não sei. Talvez esteja no quarto de alguém?"

"O quê, para fazer perguntas no meio da noite?" Embora Ruby esteja inicialmente cética, um momento de reflexão muda sua opinião. "Na verdade, não é uma ideia ruim."

É difícil determinar onde um quarto poderia estar quando tudo é tão grande assim. Quando finalmente encontram uma escada, apenas Troyan consegue escalar a pedra escorregadia — e isso lhe exige um grande esforço. No entanto, ele joga uma corda para os outros, e eles se içam um por um. Dessa forma, conseguem subir as duas dezenas de degraus para um nível superior que pode, no fim das contas, nem conter um quarto.

Mas, no meio dos degraus, eles têm o despraer de encontrar um ganso.

Anos na fazenda endureceram o coração de Kellan para essas criaturas malditas. Ele ama quase tudo e todos que respiram no Reino — exceto gansos. E com razão. Os gansos locais são as únicas coisas que o perturbam tanto quanto os valentões locais. Talvez os gansos sejam piores.

E o que é pior do que um ganso do seu tamanho?

Um ganso do tamanho da carroça de mercado de sua família.

O ganso, adornado em ouro, desce os degraus gingando à frente de sua dona — que, por suas vestes, deve ser a própria senhora da casa. E embora os gigantes possam não notá-los, o ganso nota, soltando um grasnido horrível e encarando-os enquanto eles atingem outro degrau.

Kellan sabe em seu coração qual é a resposta certa para lidar com essa abominação.

"Corram!", ele grita. "Corram por suas vidas!"

Ele parte como um tiro, seus sapatos falhando em conseguir qualquer tração contra o mármore. Ruby tem mais sorte — ela pula do degrau, caindo nos braços de Troyan, que a aguardava. Ela para e se vira apenas para ver Kellan cair de peito no mármore, com o bico do ganso descendo como um machado—

And two fingers pinching the back of his cloak. -> E dois dedos beliscando as costas de seu manto.

Ele é erguido alto no ar, seus pés balançando abaixo dele. O ganso morde seus calcanhares. Se ele ousar olhar para baixo, terá uma visão profana da boca do ganso, algo que poderia marcar sua mente para sempre, mas ele é sábio o suficiente para evitar esse destino. Em vez disso, ele fixa os olhos na carranca da gigante. Kellan ergue as mãos e dá de ombros. "D-desculpe pela intrusão."

"Quem é você?", pergunta ela. A força de sua fala o faz balançar. "O que você está fazendo na minha festa?"

"Eu vim em uma missão!", diz Kellan. Difícil fazer uma pose heróica aqui, mas ele dá tudo de si. "Eu procuro o espelho mágico—"

O lábio da gigante se curva em um esgar de desprezo. "Não."

"Honrada Senhora", grita Ruby. Ela colocou as mãos em concha sobre a boca; deve estar gritando a plenos pulmões. "Não queremos fazer mal! Só queremos fazer uma pergunta ao espelho!"

"Você acha que é a primeira vez que ouço essa mentira?", responde a gigante. "O povo pequeno gosta de nada mais do que enganar. Como ousam entrar na minha casa na noite do meu aniversário e exigir tal coisa de mim?"

"Feliz aniversário!", Kellan deixa escapar.

"Não preciso ouvir isso de você", responde ela.

Kellan ouve um suspiro profundo vindo de trás deles. "Beluna, não me diga que você está causando problemas."

Sua anfitriã relutante — Beluna — se vira. Por cima do ombro dela, Kellan vê um homem coroado, seu copo já meio vazio, as bochechas coradas. Apesar das vestes finas que usa, ele tem apenas metade do tamanho de Beluna, e sua barba é espessa e verde. Beluna faz uma reverência ao vê-lo — o que quase derruba Kellan na goela aberta do ganso. "Lorde Yorvo", diz ela. "Estou apenas lidando com algumas pragas."

"Pragas com as quais você está falando."

"Sim, meu lorde", diz Beluna. Ela ergue Kellan em direção ao outro homem. Olhando para ele agora, ele tem certeza de que aquela barba realmente é feita de plantas. E se ele é menor, mas Beluna o está ouvindo... poderia ser o Rei Gigante? Kellan nem sabe o nome dele, apenas que ele desapareceu de Garenbrig durante a invasão. O que ele está fazendo tão longe daqui? Ele não é como esses gigantes. Talvez esteja fazendo uma visita para a festa de aniversário? Kellan espera muito, muito mesmo que ele esteja de bom humor, senão... o ganso aguarda.

"Isso se parece bastante com um rapaz", diz o rei. "Você não está planejando alimentar seu ganso com o povo pequeno no seu aniversário, está? Você não pode estar tão necessitada de ovos de ouro."

"Ele pretende roubar o espelho", ela protesta. "E como é o meu aniversário, acho justo que eu decida o que fazer com ele."

O rei volta sua atenção para Kellan. "Jovem. Por que você está aqui?"

"Recebi uma missão do lorde das fadas", diz Kellan. Ele espera que mencionar Talion suavize as coisas. Lordes respeitavam uns aos outros, não respeitavam? "Eu e meus amigos pretendemos encontrar e derrotar duas bruxas, mas não sabemos para onde ir. Esperávamos pedir ajuda ao espelho."

O rei assente, acariciando a barba. "Considere você e os seus como meus convidados nesta festa."

Kellan sorri. "Com certeza!", diz ele.

"Beluna, não acho que haja mal em mostrar o espelho a eles. Não há como eles conseguirem movê-lo sendo apenas três e... bem, eles agora são convidados." O Rei lhes lança uma piscadela conspiratória. "Dê minhas lembranças ao Bondoso Lorde, sim? De volta agora daquela longa viagem."

Ele não ouve o gemido de Beluna, mas pode senti-lo. "Você está forçando a hospitalidade, Lorde Yorvo", diz ela. "Mas... eu entendo seu ponto."

O rei passa, dando um tapinha na cabeça do ganso ao ir. Beluna coloca Kellan na palma da mão. Ela pega cuidadosamente os outros e os coloca lá também, então começa a caminhar sem dizer uma palavra. Seu passo é tão largo que chegam ao destino em poucos instantes.

É, de fato, um quarto.

Ela os coloca em frente ao espelho e cruza os braços. "Sejam rápidos", diz ela. "Vocês têm sorte de Albiorix não ir comê-los esta noite."

"Quem dá o nome de Albiorix a um ganso?", resmunga Ruby.

Kellan contém um estremecimento e se aproxima do espelho. O rapaz que ele vê ali — envolto em um manto, já um pouco mais magro pela viagem — parece maior do que o rapaz que ele era há apenas algumas semanas. Mais parecido com um herói.

"Oh, grande espelho", diz ele. "Onde posso encontrar a bruxa Hylda?"

Nada acontece.

Kellan franze a testa.

"Você tem que contar a ele algo que ele não saiba, homúnculo", diz Beluna. "O espelho não cospe informações valiosas de graça."

"Hm. Algo que ele nunca tenha ouvido antes", repete Troyan. Ele coloca a mão no ombro de Kellan. "Espelho de Indrelon, meu nome é Troyan, e eu não nasci aqui em Eldraine."

"O quê?", diz Ruby — mas a magia já está começando a funcionar.

Winter's own breath fogs the silvery surface. Kellan feels compelled to reach forward and wipe it away. Beneath the condensation, he sees a castle of ice, faceted and glittering, resting atop a rocky cliff. -> O próprio sopro do inverno embaça a superfície prateada. Kellan sente-se impelido a esticar a mão e limpá-la. Sob a condensação, ele vê um castelo de gelo, facetado e cintilante, repousando no topo de um penhasco rochoso.

"Espere... acho que conheço esse lugar. Loch Larent. Meu irmão costumava me levar para pescar lá", diz Ruby. Ela franze a testa. "Mas não havia gelo nenhum lá quando fomos antes da guerra. Como ela construiu algo assim tão rápido?"

"Não sei", diz Kellan. "Mas se você guiar o caminho, talvez possamos descobrir."

Episódio 4: Ruby e o Coração Congelado

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O dia está fresco e brilhante quando Kellan e Ruby retornam a Mureta. Após a vida difícil em Dunbarrow e o prodígio da casa dos gigantes, este lugar parece tanto um paraíso quanto um casebre. É disso que Kellan mais gosta nele. Se ele voltasse para casa no Condado de Orrin, ele saberia exatamente o que veria: sua mãe no tear, seu padrasto cuidando das ovelhas, os aldeões seguindo seu dia em perfeita harmonia. Não há vestígios do Sono Maléfico no Condado de Orrin, nem surpresas.

Aqui em Mureta há muitas.

Primeiro é a propagação do violeta pela cidade. Onde outrora os fios amaldiçoados acentuavam as ruas e becos, agora eles formam rios e riachos. Quando eles partiram, havia dezenas de adormecidos. Agora, com o coração apertado, Kellan percebe que as vítimas estão além da conta. Apoiadas em varandas, escondidas sob pergaminhos e cobertores, paradas em janelas abertas...

Até Ruby fica desconcertada com a visão. Ela não diz isso — ela é corajosa demais — mas ele ouve isso na respiração curta dela enquanto caminham pelas ruas. Ele vê isso nos saltos cuidadosos que ela dá para evitar quaisquer fios de violeta, na rigidez de sua postura. "Cuidado onde pisa", ela diz a ele com um sorriso mais pelo bem dele do que por qualquer alegria própria. "Não podemos deixar nosso herói cair no sono."

"Não me chame assim", Kellan responde. "Minha mãe sempre me diz que se eu agir como se algo que fiz não fosse grande coisa, todo mundo também vai agir assim. Você é tão heroica quanto eu."

Ruby ri. "Sua mãe parece ser uma boa senhora, mas você está enganado. Peter é o herói da nossa família. Criar sua irmãzinha sozinho e ser o melhor caçador da cidade..." Ela pula um fio amaldiçoado. "Isso é um verdadeiro herói."

"Eu acho que existem muitas maneiras de ser um herói", diz Kellan. "Peter é um, mas você também é. E eu gostaria de ser um algum dia, também."

"Bem, você já está em uma missão", diz Ruby. Ela os guia pelas ruas até uma pequena cabana na borda da cidade. Uma alma pouco generosa diria que não faz parte de Mureta, mas as cores da cidade penduradas na janela orgulhosamente proclamam o contrário. Uma coluna de fumaça de macieira sobe pela chaminé. O estômago de Kellan ronca.

"O que você acha que faz um herói, afinal?", ela pergunta a ele.

"Um herói é alguém que sempre faz a coisa certa", diz ele. "Alguém que torna a vida de outras pessoas melhor."

Ruby para com a mão na porta. Ela estreita os olhos. Kellan espera para ver se ela responderá, mas não há chance de discutir o assunto. Peter os avista da janela e os convida para entrar. Com bifes de carne de veado frescos chiando em suas frigideiras de ferro fundido, o assunto do heroísmo dá lugar galantemente ao do jantar. E aos planos.

Eles contam a ele que estão indo para o Lago Larent, e ele concorda em levá-los — sob uma condição.

"Você deve usar meu manto mais grosso, e quando não conseguir mais sentir seu nariz, deve voltar. Não importa as circunstâncias."

"Mas e se não tivermos terminado até lá?", diz Kellan.

"Então, uma vez que vocês dois tenham retornado, eu mesmo irei", diz Peter. "Já ouvi falar sobre aquele castelo. Ninguém conseguiu chegar ao centro. Nem os outros caçadores, nem os bandidos. Syr Imodane tentou antes de vir para cá. Na opinião dela, era mais fácil enfrentar as terras selvagens do que caminhar mais de quarenta passos pela ponte levadiça — e ela com aquela magia ígnea para aquecê-la."

O silêncio cai sobre a sala. Kellan olha para Ruby, e Ruby para Kellan.

"Eu não vou voltar", diz ele. "Eu não posso. Não quando tantas pessoas estão doentes. Meu senhor disse que quem derrotar as bruxas acabará com a maldição —"

"Seu senhor não disse que tinha que ser você, rapaz", diz Peter. "Não há vergonha em precisar de ajuda. Você é apenas um menino, e Ruby ainda é jovem. Você deve saber quando uma fera pode ser abatida, e quando é melhor deixá-la em paz."

Quando Kellan encontra o olhar de Ruby novamente, ele sabe que ela está pensando a mesma coisa.

E se Peter estiver certo?

No final, Ruby faz a promessa. Seu irmão coloca uma pele de urso sobre os ombros dela, embora ela insista em manter o capuz. Para Kellan, ele concede um belo casaco de lã, cuja visão faz o menino soltar um gemido. A lã é do Condado de Orrin.

No entanto, ele o usa com orgulho à noite, quando Peter lhes diz que tem uma surpresa para eles, e ele enterra o rosto em sua gola levantada assim que o constrangimento o domina. Pois lá, na praça da cidade, há crianças reunidas em capuzes vermelhos e mantos de lã. Dezenas delas, ele pensa — e há tantas meninas de lã quanto meninos de vermelho. Todos observam em perfeito silêncio enquanto dois fantoches triunfam sobre todo tipo de problema para derrotar uma bruxa má e comedora de gente.

Na luz trêmula das velas, Kellan acha que vê Ruby chorar. Mas ela as enxuga no segundo em que ele a percebe, e os dois não dizem mais nada sobre este momento sagrado.

Arte de: Julie Dillon

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O Lago Larent fica a uma longa semana de viagem de Mureta. Peter os leva por grande parte do caminho, mas à medida que se aproximam do próprio lago, ele anuncia que parará para acampar. E quem poderia culpá-lo? Mesmo a um dia inteiro de viagem de distância, está tão frio que Kellan deve pular de um pé para o outro para se manter aquecido. Em todos os seus invernos, ele enfrentou apenas dois dias mais frios que este — ambos nos meses mais rigorosos. Ele e sua família se amontoaram com as ovelhas para que ninguém congelasse. No fundo, ele se perguntava se era possível para alguém congelar de fato. Parecia uma coisa que a água fazia, ou talvez a cerveja, mas nunca as pessoas.

Ele se pergunta menos sobre isso agora. Mas ele não menciona isso. Nem Ruby.

Peter é mais vigilante. "Você tem certeza de que não quer que eu vá com você?", ele pergunta.

"Você ainda está se recuperando", Ruby responde, embora Kellan ouça uma pontada de arrependimento em sua voz. "E além disso... acho que quero tentar esta sozinha. Para ver até onde posso ir."

Eles se despedem de Peter. Ele os abraça forte, deseja-lhes sorte e permanece junto ao fogo enquanto eles partem. Por um longo tempo depois, Ruby olha por cima do ombro, talvez procurando por sua silhueta contra a luz laranja. Tudo o mais neste lugar é azul, verde ou violeta. O céu acima é marmorizado com todas as três cores girando umas sobre as outras como as camadas do manto de uma nobre. Sob a superfície congelada do lago, luzes azuis misteriosas flutuam e se tecem, disputando a atenção deles. Kellan acha que vê um par de olhos amarelos sob o gelo — mas um momento depois eles desaparecem.

O mais impressionante de tudo é o castelo. Vê-lo através do espelho é uma coisa; colocar os olhos nele pessoalmente é outra bem diferente. Kellan não tinha ideia de quão grande ele era até agora. A torre principal ergue-se em um penhasco com vista para o lago, mas quem quer que o tenha projetado não conseguiu parar por ali. A loucura atingiu o arquiteto invisível: portões levando a novas fortalezas, pontes levadiças para lugar nenhum, uma série interminável de pátios internos, cada um dando lugar a um novo portão. Kellan conta cinco portas levadiças apenas.

Eles se esgueiraram em uma cabana, escalaram um pé de feijão e caminharam por baixo da porta para entrar na fortaleza de um gigante.

Eles ainda não haviam invadido um castelo.

A estrada diante deles, pavimentada com cascalho de cristal cintilante, parece mais uma ameaça do que um convite. No entanto, Kellan não hesita em pisar nela. O medo não é nada diante do bem maior, diz ele a si mesmo.

Mas Ruby para, seu pé bem na beira do cascalho crocante. "Isso... parece diferente, não é?"

"Só se você deixar", diz Kellan. Ele estende a mão. "Pelo menos não temos que fazer nenhuma escalada desta vez."

Ruby ri soltando uma nuvem de vapor. Ela pega a mão dele e começa no caminho. "Não diga isso muito alto, ou Troyan pode surgir de um monte de neve."

"Eu não acho que isso seria tão ruim", diz Kellan. "Os lugares sobre os quais ele costumava falar pareciam ótimos, não pareciam?"

Ruby solta uma vaia. "Os lugares de que ele falava eram inventados, Kellan! Toda a minha vida em Mureta e eu nunca ouvi ninguém falar sobre um circo da dor antes. O que isso sequer significa?"

"Eu não sei. Pensei que talvez fosse algo que as fadas fizessem", diz Kellan. Ele tenta não deixar o desapontamento transparecer em seu tom, mas como sempre, Ruby é esperta demais para que isso funcione.

"Você realmente quer ver mais das terras das fadas, não quer?", diz Ruby. Ela aperta a mão dele. "Tenho certeza de que, uma vez que isso termine, você será o brinde da cidade."

Ele não tem tanta certeza disso. Parte dele se pergunta — ele sempre foi feérico demais para os humanos, e se ele for humano demais para as fadas? Talion já apontava o quão pouco ele sabia dos costumes das fadas toda vez que se falavam. Ele ainda não conseguiu fazer os punhos de cesta funcionarem para ele. E se for o mesmo lá, mas diferente?

Ele tenta pensar em algo para dizer.

Mas outra pessoa logo fala por ele: a voz de uma mulher carregada pelo vento gélido.

"Cavaleiros, bandidos e aspirantes a rei falharam em percorrer este caminho. Duas crianças têm pouca esperança de sucesso. Voltem."

O céu acima escurece, o vento se intensifica; não fosse pelo alfinete de aço prendendo o manto de Kellan no lugar, ele teria sido arrancado de seu corpo pequeno.

Ruby puxa a cabeça do urso sobre a sua para não congelar. Kellan faz o mesmo, embora com seu capuz simples de lã.

"Não vamos desistir tão facilmente", ele grita para o ar. Mas aqui o ar está tão frio que o corta ao falar, e quando apenas o silêncio responde, ele se arrepende de ter feito tal esforço.

"Os bravos vivem vidas curtas. Não pense que sua idade lhe renderá qualquer misericórdia de minha parte. Meu reino estará a salvo de ameaças, independentemente de quem sejam essas ameaças. Voltem."

A cada palavra que Hylda pronuncia, o ar ao redor deles fica mais frio. Tão poderoso é o vento que eles devem se esforçar contra ele a cada passo, mas não param de caminhar.

Kellan continua olhando para Ruby enquanto avançam. Ele não consegue ver muito do resto do rosto dela, mas o que ele vê está tão vermelho quanto o capuz dela. Certamente ela não consegue mais sentir o nariz. "Você não precisa continuar."

Mas Ruby apenas lança a ele um olhar de soslaio. "E deixar a bruxa vencer?"

"Ela não vencerá se eu chegar lá", diz Kellan. Ele fala em seu cachecol para tentar se manter aquecido. "Se continuarmos..."

"Vocês morrerão," vem a voz de Hylda. "Este é o seu aviso final. Ouçam suas próprias palavras e afastem-se."

O véu de neve ficou tão espesso que tudo o que ele consegue ver é cinza e branco. Ainda assim, ele se vira no lugar, tentando encontrar o castelo. À distância, ele avista a mancha mais tênue de azul. A uma milha de distância, se não mais.

Kellan pisca os olhos gelados. Ele poderia se afastar — mas se o fizer, ninguém jamais acordará, e ele nunca saberá quem foi seu pai.

"Você... não reconhece... um herói em missão quando vê um", ele sussurra asperamente. Ao lado dele, Ruby ri, e isso o faz sentir um pouco mais corajoso.

"Reconheço. Eles morrem tão facilmente quanto qualquer outro. Vocês não serão os últimos," Hylda responde. Sua voz desaparece no uivo do vento — e das criaturas dentro dele.

O primeiro se move rápido demais para os dois jovens verem: um rastro de azul-celeste em sua visão, um som como vidro quebrando. Somente quando a lança de gelo pousa a seus pés eles percebem o que estão vendo. A neve rodopiante à frente deles se solidificou em malha e placa: um guerreiro de geada, pelo menos o dobro do tamanho de Kellan, avança sobre eles. Uma nova lança se forma em sua palma aberta.

Uma estocada perversa mira direto no coração de Kellan. Ruby o puxa para fora do caminho. Ainda assim, a ponta perfura o belo manto de Kellan até o solo nevado abaixo deles. O vento uiva em seus ouvidos e a neve pica seus olhos enquanto ele tenta fugir.

Mas a lã do Condado de Orrin é renomada por sua força. A própria fibra de seu lar — talvez tosada de suas próprias ovelhas — o mantém no lugar. Por mais que tente, ele não consegue arrancar o canto preso.

"Ele não pode te machucar se a lança dele estiver presa!", grita Ruby. "Apenas solte o manto e vá!"

Mas ele não pode. Seus dedos estão rígidos demais para operar o fecho que mantém seu manto no lugar, e mesmo que conseguisse, onde isso os deixaria? Em um frio como este, ele certamente congelaria.

Kellan trava os olhos com o guerreiro através da penumbra. Há uma nova forma se formando em sua mão livre: um machado.

"Ruby, vá em frente!", diz ele.

"Não seja t—aaah!"

O protesto dela é interrompido quando ela é arrancada para o alto. Outro guerreiro se formou, e este a tem em suas garras. Uma espada listrada de geada é pressionada contra a garganta dela.

Não, não, não é assim que isso deveria acontecer. Uma coisa é ele estar em apuros, mas tem que haver alguma saída para isso. Nas histórias, sempre há algo que o herói descobre. Mas ele não tem armas e não conhece nenhuma mágica porque sua mãe nunca lhe ensinou nada, e seu pai nunca...

O guerreiro prepara um golpe.

"Pai, por favor", Kellan choraminga. Ele estende a mão uma última vez para os punhos de cesta... e uma luz dourada corta o cinza. Algo em Kellan parece brilhante como a primavera, não importa o ambiente, algo que flui para os punhos e os transforma. Agindo por instinto, ele ataca —

Arte de: Fajareka Setiwan

— e sua recém-descoberta espada corta direto o braço do guerreiro de geada.

Kellan fica boquiaberto com a delicada lâmina de luz em suas mãos, a coisa que ele conjurou de seu próprio desespero. Ao redor do punho, a luz parece se aguçar como espinhos. Ele a admira por um segundo, mas agora ele tem que tirá-los dessa confusão.

Kellan se esquiva por baixo das pernas do guerreiro, correndo direto para Ruby. Antes que possa pensar em hesitar, ele decepa o braço deste guerreiro também. Pegar Ruby na descida é uma coisa fácil em comparação.

"Kellan, você está conseguindo!", ela diz, com os olhos arregalados. "Poderes feéricos, você está realmente conseguindo!"

"Estou!" Se ele disser qualquer outra coisa, teme que estragará tudo, como se nomear em voz alta fosse dissipar o efeito.

Ele a coloca de volta no caminho. Os guerreiros, uivando de dor, se afastaram, deixando suas armas alojadas na neve. Ruby pega a espada e fica de costas para Kellan no caminho. Mas quanto mais esperam, mais difícil é permanecer de pé. Sua euforia inicial começa a dar lugar. A espada mágica em suas mãos é pesada como ferro. Já ficou mais frio? Uma sonolência estranha surge e ele se preocupa que deva ser a maldição — mas não há colunas de violeta aqui, nenhuma mágica exceto a dele e a de Hylda. Então, por que ele está tão...?

As pálpebras de Kellan começam a pesar. "Ruby... eu acho que posso estar..."

"Kellan?", diz Ruby. Ela se vira. "Kellan!"

Talvez eles devam descansar antes disso, no entanto. Ele está com tanto frio, e tão cansado, e...

Ele já se saiu tão bem, ele merece um cochilo.

Kellan cai.

Desta vez, Ruby é quem o ampara.

Arte de: Leanna Crossan

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Entre os redemoinhos de azul, branco e verde, há uma garota de vermelho — e um menino que ela carrega pela neve.

Aninhado em seus braços, encolhendo-se instintivamente no calor de seu manto, Kellan é tão frágil que ela teme que os flocos de neve que caem o quebrem. Sua respiração é tão superficial que, se ela não pudesse sentir seu batimento cardíaco, pensaria que ele está morto.

"Leve-o e vá para casa."

Olhando para ele, ela sabe que é um bom conselho. Seu irmão diria o mesmo a ela: eles falharam. Ela pode levá-lo de volta, e então os dois podem descobrir outra coisa para fazer. Ou talvez algum outro herói apareça, alguém com um coração como uma fornalha e sangue como minério fundido, que não será retardado pelo frio.

Um mês atrás, ela não teria hesitado. A vida era sobre cuidar de si e dos seus; era sobre permanecer viva.

Mas não é apenas isso mais. Isso é maior do que os dois; o teatro de fantoches mostrou isso a ela. Todas aquelas crianças em seus capuzes vermelhos — o que elas pensariam se ela o deixasse aqui? O que Kellan diria quando acordasse, sabendo que talvez nunca soubesse a verdade sobre seu pai? Como ela poderia viver consigo mesma se o Sono Maléfico nunca desaparecesse?

Ruby começa a caminhar.

A neve range sob os pés, o vento assobia em seu ouvido. Seus passos nunca pareceram tão pesados quanto agora; cada um é uma batalha.

"Você não deve nada a ele." "As pessoas não precisam dever nada umas às outras para se ajudarem", responde Rubi, falando contra o vento cortante.

Não há resposta. Por um longo tempo, não há palavra alguma — nenhum som exceto as rajadas, a neve, a respiração dela. Ela não consegue ouvir nem a de Kellan. Geada se formou em seus cílios. Embora ainda esteja longe, o castelo se aproxima a cada passo dado — a cada batalha vencida.

Um passo, outro. Suas pernas doem.

"Ele é pequeno e fraco. Você é resistente e forte. Você tem sangue de caçadora. Abandone-o e talvez ainda consiga me alcançar."

Rubi sente como se estivesse respirando vidro, mas continua respirando. "Continue... falando... eu estava ficando solitária mesmo."

Uma rajada forte, provavelmente o desagrado da bruxa, a derruba. Ela e Kellan caem na neve. O frio drena a força pela qual ela lutou tanto para manter. Cada um de seus membros parece pesar tanto quanto um porco de colheita.

No entanto, ela os levanta. No entanto, ela se levanta. No entanto, ela ergue o garoto da neve e o carrega, mais uma vez. E em nenhum momento lhe ocorre a ideia de deixá-lo para trás.

Um pé na frente do outro.

"Sabe o que eu acho?", Rubi grita para o vento. "Acho que você também é solitária. É por isso que continua me provocando. Você não consegue conversar com as pessoas de outra forma, não é?"

Outra rajada poderosa. Granizo a castiga. Ela se agacha, com o manto recebendo o pior do impacto.

"Parta."

Rubi segura Kellan com mais força e continua seguindo.

Os portões esqueléticos surgem diante dela. Há quanto tempo ela está caminhando? Parece uma eternidade. Ela se vira e observa seus rastros sobre as extensões geladas. Peter disse que aquela era a parte mais fácil, chegar à ponte levadiça mais externa. Era a travessia que matava.

Quando ela se volta para a ponte levadiça, consegue vê-los: volumes sob o manto de neve branca e pura. Corpos mantidos ocultos da vista. Ela e Kellan seriam tão pequenos que escapariam da percepção se terminassem assim. Nem mesmo Peter seria capaz de encontrá-la.

Volte quando não conseguir mais sentir seu nariz, ele lhe disse. Ele a fez prometer.

Na verdade, ela já não conseguia senti-lo há algum tempo.

Rubi pisa na ponte.

Não há montanhas para moderar o vento aqui, nem estruturas para protegê-la do granizo ou da chuva congelada. No momento em que ela sai a céu aberto, o clima a atinge de todos os lados. Seus dedos tremem. Ela não conseguiria movê-los se tentasse. Mas ela não precisa movê-los para segurar firme, para continuar caminhando.

Um passo, outro.

"Você é tola por continuar."

"Talvez", diz Rubi. Ela não pode contestar esse ponto. Embora esteja apenas em um quarto do caminho pela ponte, já está ficando difícil continuar levantando os pés.

"Você vai morrer aqui."

"Eu não saberei disso até que aconteça", diz Rubi. Ela não está mais levantando os pés; ela não consegue. Ela caminha pesadamente pela neve como um bêbado voltando da taverna para casa. "Eu tenho que tentar."

"Mas por quê? Por quê?" pergunta a bruxa. Pela primeira vez há urgência em sua voz; pela primeira vez, ela realmente parece aborrecida. "Você não tem motivo para—"

"Porque meu amigo quer derrotar você, para que ele possa encontrar o pai dele e salvar o Reino, e eu não vou decepcioná-lo", diz Rubi.

Um terço do caminho percorrido. Ela já passou por cinco corpos.

"Você abandonaria sua vida porque...?"

"Porque é a coisa certa a se fazer", diz Rubi.

Outro passo. Mais um. Seus joelhos cedem.

Então ela não consegue mais andar. Grande coisa. Ela ainda pode engatinhar.

Rubi se força a rolar. Ela desloca Kellan para suas costas, lança as mãos para a frente. Elas mergulham na neve. Tão frio, tão cansada, tão desajeitada, mas ela tem que tentar.

"Isso é inútil. Você sabe disso."

"Ele faria o mesmo por mim, e não acharia que era inútil", diz Rubi.

Não vai funcionar. Ela sabe disso, no fundo, mas vai continuar tentando de qualquer maneira. Mesmo que ela desmaie, mesmo que a neve a leve, Kellan acordará em algum momento. Talvez seu sangue de fada ajude. E então, quando ele chegar ao castelo, poderá descobrir o que fazer. Ela estende a mão para o próximo apoio.

Mas, em vez disso, ela encontra uma palma estendida, com dedos puramente brancos e unhas delicadamente pontiagudas. Um bracelete de cristal brilha no pulso. "Segure minha mão."

Aquela voz. É a bruxa. Mas o que ela está fazendo aqui fora?

Rubi respira trêmula. O irmão dela encontrou uma bruxa uma vez — olhe onde isso o levou. Ela balança a cabeça. "Não. Eu não vou—"

"Não pretendo lhe fazer mal", diz a bruxa. "Mas se você não acredita em mim, eu lhe provarei."

A bruxa se ajoelha ao lado dela. Ela parece mais triste do que Rubi esperava. Nenhuma quantidade de adornos brancos, nenhuma coroa de inverno pesada, nenhuma magia pode esconder a solidão em seus olhos pálidos.

Lentamente, o clima ao redor deles se limpa até que reste apenas a neve suave caindo.

É nesse silêncio perfeito que a bruxa se inclina sobre Kellan. "Doces crianças, que suportaram tantas tribulações..." Ela pressiona um beijo na testa de cada um deles. "Sejam bem-vindos ao Lar do Inverno."

Arte de: Miranda Meeks

A magia formiga na pele de Rubi enquanto ela começa a perder o foco. "O que você está fazendo?", ela murmura.

"Mantendo-os seguros", diz a bruxa. Rubi sente dedos frios percorrendo seu cabelo. "Você estava certa sobre mim, receio. Eu sou solitária. Eu havia me esquecido disso, mas vocês dois me mostraram o que eu abandonei ao permanecer aqui neste castelo."

A visão de Rubi começa a desaparecer.

"Durma, criança. Quando vocês dois acordarem, terão a verdade."

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Os jovens acordam horas depois em uma sala de gelo reluzente. Dois golens, moldados com o mesmo material das paredes, guardam seu sono. Cobertores, grossos e felpudos, os cercam, e diante deles está um banquete matinal apresentado em uma bandeja de cristal. Sidra temperada, torta, sopa farta — qualquer coisa que alguém pudesse desejar para aquecer os ossos — repousa sob uma cloche cintilante. Tudo o que resta é estender a mão.

Kellan o faz sem pensar. Seu estômago roncando, sua cabeça martelando. O que mais um jovem faria? Mas Rubi detém sua mão.

"É obra da bruxa", diz ela.

"A bruxa que não lhes quer mal", vem a resposta do outro lado da sala. Ela está se levantando de uma cadeira, pousando um livro. Ela pega sua própria caneca e pires antes de se sentar à frente dos dois. "Fico feliz em ver que estão bem."

"Como saberemos que isso não é um truque?", pergunta Rubi. "Você nos salvou lá fora, mas talvez só quisesse nos deixar à vontade por um tempo. Talvez você vá nos comer—"

"Comer vocês? Suponho que tenham conhecido Agatha", diz ela.

"Nós a jogamos em um caldeirão", diz Kellan. Ele não tem certeza de quão certa Rubi está sobre isso, ou mesmo de como foi parar ali, mas achou que valia a pena dizer.

Se isso incomoda Hylda, ela não demonstra. "Ela não merecia menos", diz ela. "Eu costumava acreditar que era diferente delas. As outras duas, quero dizer. Elas sempre buscaram poder. Tudo o que eu sempre quis foi ficar sozinha."

Kellan olha para Rubi. Ele tem uma lembrança vaga da voz de Hylda, mas é uma que o deixa à vontade. Ele aperta a mão de Rubi. "Mesmo se você gostar mais de ficar sozinha do que com as pessoas, é sempre bom ter amigos."

A bruxa sorri. Seu rosto não é adequado para tais coisas. "Assim é", diz ela. "Mesmo quando são amigos muito céticos."

Rubi faz beicinho. "Eu só estou cuidando dele!"

Uma risada tão inadequada para a bruxa quanto seu sorriso. "Não lhes desejo mal — mas vocês são difíceis de impressionar. Duas dádivas a mais provariam minhas intenções para vocês?"

Rubi cruza os braços, como se esperasse para ver o que seriam. Enquanto isso, Kellan se serve de sidra e torta. Hylda não pretendia lhes fazer mal; se pretendesse, os teria deixado lá fora. Além disso, sua mãe sempre o ensinou que era rude recusar hospitalidade assim.

Mas logo ele para quando vê o que Hylda fez. Com um toque cuidadoso e leve, ela retirou a coroa congelada da cabeça e a colocou sobre a mesa diante deles.

"Pronto. Já me sinto mais leve. Levem isso ao Lorde Bondoso, como prova da minha derrota."

"Você tem certeza?", pergunta Kellan.

"Mas você não está derrotada se ainda está por aqui", diz Rubi. "Quem garante que você não continuará expandindo o castelo e congelando as pessoas até a morte?"

"Eu garanto", diz ela. Ela aponta para as janelas. "Dê uma olhada lá fora, se quiser. Sem a coroa, posso manter apenas um pequeno lar para mim e os meus."

Rubi estreita os olhos e vai até a janela, com Kellan a seguindo. O sol da manhã brinca nas paredes do castelo, iluminando a água que já corre em filetes pela pedra, riachos que já despencam pelo desfiladeiro. O castelo começou a derreter.

"Acho que ela está falando sério", Kellan diz para Rubi. Então, para a anfitriã deles: "Isso foi corajoso, abrir mão do poder assim. Minha mãe sempre dizia que nem todas as bruxas devem ser temidas."

"Sua mãe não falou falsidades", diz Hylda. "Além disso, tive inspiração de sobra."

Rubi se senta. Finalmente, ela se permite desfrutar de um pouco da sidra.

Kellan pega a coroa e a coloca no colo. "Você disse que tinha algo mais para nós?"

"Uma dádiva de informação", diz Hylda. "Eu ouvi vocês dois conversando no caminho para cá. Vocês servem ao Lorde Bondoso. Quando deixarem este castelo, certamente encontrarão um dos portais deles à sua espera. Mas, desta vez, vocês não atravessarão o limiar sem saber o que os espera."

"O que você quer dizer?", pergunta Rubi.

Hylda olha para a janela antes de continuar. "Nós, bruxas, não criamos o Sono Malévolo sozinhas. Fazer isso estaria além do nosso poder."

"O quê?", diz Kellan.

"Quando os invasores chegaram, cada uma de nós tinha ideias diferentes de como lidar com a situação. Talion foi quem quebrou o impasse. A maldição do sono de Eriette, eles argumentaram, seria a maneira mais segura de neutralizar os invasores. Como nós três jamais conseguiríamos conjurar um feitiço tão poderoso sozinhas, nunca teríamos considerado tal coisa de outra forma. Éramos quatro antigamente, e talvez tivéssemos alguma esperança então, mas ela morreu há vinte anos. Precisávamos de quatro. Talion, por mais forte que seja, precisava de nós para que funcionasse tanto quanto precisávamos deles. Assim, eles nos ofereceram a chance de salvar o Reino — e dádivas por nossa ajuda. Sempre dádivas, com as fadas."

Kellan engole em seco. "Mas Talion disse que vocês colocaram o mundo inteiro para dormir."

Hylda acaricia o cabelo de Kellan. "Deveria servir apenas para deter os invasores", diz ela. "O fato de ter continuado a sair do controle depois foi obra de Eriette. Disso eu tenho certeza. Ela agarrou a oportunidade de decretar uma maldição daquele tamanho — para ter todas aquelas pessoas sob seu comando. Acho que ela poderia até ter feito isso sem uma dádiva, caso o Lorde Bondoso não tivesse oferecido uma."

"Mas... isso deveria ser uma jornada heroica", diz Kellan. Seus lábios começam a tremer, sua voz vacilante. "Eu achei que estávamos fazendo a coisa certa. Foi Talion quem fez isso?"

"Você está fazendo a coisa certa", diz Hylda. "Talion enviou você para limpar a bagunça que nós quatro criamos. Isso é algo bom e nobre de se fazer — consertar as coisas. Mas isso é feito melhor quando se tem conhecimento dos fatos."

Rubi aperta seus ombros, mas Kellan ainda não consegue parar de tremer. Talion criou isso. Supõe-se que fadas não mintam, não é? Três bruxas com sono esta terra infestaram...

Kellan pega a coroa em seu colo e sai tempestuosamente da sala.

Pelos corredores sinuosos e escadarias em espiral ele segue, apesar de não conhecer o caminho. Atrás dele, Hylda chama, mas ele não consegue distinguir o que ela diz com o sangue latejando em seus ouvidos. Quando finalmente chega ao lado de fora, ele vê que Hylda tem razão: já existe um portal.

Quando Kellan estende a mano para a porta, a mão de Rubi encontra seu pulso novamente. Ela está suada e sem fôlego, tendo corrido atrás dele por todo o caminho, mas ela está ali — com ele.

"Juntos, lembra?", ela diz.

Kellan não consegue articular palavras; o nó em sua garganta é grande demais. Ele assente e atravessa o portal.

Juntos, os dois heróis caminham para a terra das fadas, a terra de castelos falsos e esperanças falsas. Talion aguarda, envolto como sempre, em seu trono. "Galantes aventureiros, grande glória conquistaram —"

Kellan atira a coroa aos pés de Talion.

O Lorde Bondoso estuda a dádiva inestimável. Eles arqueiam uma sobrancelha para o garoto. "O espírito de seu pai está finalmente se revelando, rapaz. O que o perturba?"

"Você mentiu", diz Kellan.

Talion acena uma varinha de espinheiro. Uma serva fada recolhe a coroa e a leva embora. Talion, pela primeira vez, senta-se devidamente no trono.

"Fadas não mentem," dizem eles. "Isso é um anátema para nós. Se eu fosse mentir para você, meu sangue coalharia como leite estragado."

"Nós sabemos sobre a maldição", diz Rubi. "Sabemos que foi você quem teve a ideia. Você está nos usando, não está?"

Talion inclina-se para trás. Seria aquilo um sorriso sarcástico em seu rosto? Kellan acha que sim, e ele odeia isso. "Ah. Aquele assunto. Seria tão ruim ser usado para fins tão nobres? A espada de um cavaleiro não reclama de beber sangue."

"Não é a mesma coisa!", protesta Kellan. "Você perguntou se éramos puros de coração. Você disse que me ajudaria a encontrar meu—"

Que vergonha desabar assim, chorar na frente do Rei das Fadas, mas Kellan não consegue impedir sua voz de falhar, nem as lágrimas de correrem. Ele limpa os olhos em frustração. "Eu acreditei em você. Eu realmente acreditei que você o conhecia."

"Eu conheço", diz Talion. As lágrimas de Kellan não têm efeito algum sobre eles. "E eu lhe direi o que sei sobre ele se você completar esta missão. Ou você se recusará a salvar o Reino porque não gosta do motivo pelo qual ele está sendo salvo?"

Kellan cerra o punho. "Eu... eu não disse... Não é tão simples!"

"Nada em nossas terras é simples", diz Talion. "Você encontrará Eriette no Castelo de Ardenvale. Derrote-a e você encerrará a maldição; encerre a maldição e eu lhe falarei de seu pai. Ou não a derrote. Volte para seu lar bucólico e nunca mais chegue tão perto de pertencer a algum lugar quanto chegou ao abraçar sua herança. A escolha é sua."

Um aceno da varinha. O Mundo das Fadas oscila e desaparece ao redor deles.

Mais uma vez, eles estão nos penhascos do lado de fora do castelo de Hylda.

E Kellan? Kellan começa a chorar.

Episódio 5: Juramentos Quebrados

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O jovem Kellan chega às ruínas do castelo. Embora os feitos dele e de Ruby tenham lhes rendido o presente recente de pôneis, ele não se sente heroico montado em seu novo corcel. Longe disso. Enquanto observa as colinas e vales outrora orgulhosos ao redor do Castelo de Ardenvale, tudo o que ele sente é resignação.

"Você está pronta?", ele pergunta a Ruby.

Ela está montada em seu próprio pônei, vestida com sua cor homônima, sua capa ondulando sobre o flanco do animal. Há uma boa razão para tal exibicionismo: uma lâmina de gelo eterno se esconde sob o tecido. Hylda achou o pedido de Ruby por uma espada "tão grande quanto ela" cativante em vez de ridículo. Com a última gota da magia da coroa, ela concedeu a Ruby a benção — e Ruby ficou feliz demais, na maioria dos casos, em se gabar disso.

Ela não está se gabando agora. Quem poderia, vendo a melancolia no rosto de Kellan? "Sim, estou. Mas se você precisar de mais tempo para conversar sobre isso —"

"Não preciso", diz Kellan. "Vamos fazer a coisa certa, e ponto final."

Nenhum inimigo os desafia no caminho para os portões de Ardenvale. Um silêncio sinistro percorre as planícies. Kellan já sentiu isso antes, nos momentos que antecedem uma tempestade, com todo o gado recuando horas antes de as pessoas saberem o porquê.

Quando eles veem o estado deplorável das portas diante deles, é algo sensato, razoável: a tempestade proverbial que os consumirá arrancou a porta das dobradiças; o coração podre e corrompido da maldição corroeu a madeira; os sonhadores que espreitam atrás dela são os pesadelos que atormentaram Kellan durante a jornada até aqui.

Este não é um lugar de socorro ou descanso, nem um lugar de glória.

É um lugar onde as feridas infeccionam.

Kellan não quer entrar. Mas ele deu sua palavra de que o faria, e algo em seu sangue se fixou a esse juramento como o esmalte ao escudo de um cavaleiro.

"Não podemos passar pelos guardas adormecidos", diz ele. "Só estaríamos machucando-os."

Ruby levanta uma sobrancelha. "Tem uma ideia melhor?"

Kellan mexe em sua capa. Em sua mão, erguido: o segundo frasco de sapificação que Troyan lhes emprestou.

Ruby sorri abertamente. "Sabe, eu gosto do jeito que você pensa", diz ela. "Mas desta vez, você se segura em mim."

Há algo no sorriso de Ruby que lembra Kellan de tempos melhores. "Tudo bem, tudo bem. Só nos coloque no chão com cuidado."

"Sem promessas", responde Ruby.

Kellan amarra os cavalos a um poste. Com dois sacos de ração, eles estarão bem pelo resto do dia — com sorte, ele e Ruby não precisarão de mais tempo do que isso. Depois de dar um rápido adeus aos cavalos, ele encontra Ruby na base das muralhas do castelo.

Eles estão no ar segundos depois. Ruby não é de ficar esperando por um sinal.

Suas habilidades de aterrissagem são melhores que as de Kellan, pousando sobre suas poderosas pernas de anfíbio apenas alguns instantes antes de começar a reverter à sua forma humana. Eriette não devia estar esperando que alguém contornasse os portões do castelo. Não há adormecidos aqui montando guarda, nem olhos fechados para observá-los.

"Certo, certo, talvez Troyan não fosse tão ruim assim", diz Ruby. Ela mantém a voz tão baixa quanto seus passos. "Para onde?"

Kellan franze a testa enquanto pensa. "Se eu fosse uma bruxa, iria querer o salão do trono só para mim."

"Hylda disse que Eriette adorava atenção", diz Ruby com um aceno de cabeça. "Provavelmente tem um monte de gente lá alimentando ela com uvas e coisas do tipo."

Kellan inclina a cabeça para ela, mas abre a primeira porta que vê, mesmo assim. "Por que uvas?"

"Não sei. Mas é sempre uvas", diz Ruby.

À frente deles: um corredor bocejante, escuro e sombrio, festonado com retratos desbotados e desfigurados. O chão e as paredes de pedra deixam o ar mais frio lá dentro. Embora haja tochas de sobra em seus suportes, nenhuma está acesa. A única luz que lhes é concedida é aquela que se filtra pela porta — e a luz da maldição ao longo do chão.

Juntos, os dois heróis seguem os cordões sinuosos de violeta pelos salões do Castelo de Ardenvale. Eles se esgueiram por quartos vazios, salas de guerra saqueadas e arsenais invadidos. Seus ouvidos estão tão atentos que os guinchos passageiros de ratos são tão altos quanto o grito de morte de um dragão.

Assim, não é de admirar que eles ouçam os passos da mulher antes de vê-la. São suaves, mas não o suficiente: o ranger de suas botas de couro, o roçar da sola contra a pedra, até mesmo seu suspiro cansado a denuncia.

Kellan e Ruby se pressionam contra cada lado da porta. Ruby é a primeira a espiar, com a lâmina ao seu lado. Quando ela gesticula para que ele faça o mesmo, é com um olhar atônito.

Ele entende o porquê. Diante de um púlpito e cercada por redemoinhos de nuvens de maldição, está uma mulher conhecida até em Orrinshire. Rowan Kenrith, a própria filha do Rei Supremo, veio ao Castelo de Ardenvale.

Kellan não consegue conter o sorriso. Ela deve ter descoberto o mesmo que eles. Ele não consegue acreditar na sorte deles.

As boas notícias sobrepujam seu bom senso. Kellan corre para dentro da sala, e Ruby o segue, sua espada pendurada como um brinquedo ao seu lado. "Rowan!", chama ele. Então, com as bochechas ficando vermelhas de vergonha quando ela olha para cima, ele gagueja. "E-eu quero dizer, L-Lady Kenrith! Cuidado com a maldição —"

"Quem são vocês? O que estão fazendo aqui?", ela responde. Estranho — Rowan está franzindo a testa.

"Viemos derrotar a bruxa, igual a você", diz Ruby. "Existe algum tipo de feitiço mantendo você presa?"

Kellan não tinha pensado nisso. Ainda bem que Ruby veio junto; ela está sempre agindo rápido. Deve haver algo prendendo Rowan no lugar — a maldição, talvez. Do jeito que ela está girando ao seu redor, deve ser isso.

"Podemos encontrar algum jeito de quebrar o feitiço", oferece Kellan. Não há caldeirões aqui, nem gelo que não derrete, nem sigilos que ele possa notar. Apenas livros, varinhas, páginas soltas e tinteiros. Ele os analisa em busca de respostas. "Eu e Ruby ficamos muito bons nisso."

"Somos heróis", acrescenta Ruby, prestimosa.

Mas Rowan Kenrith não ri nem sorri, nem sequer lhes agradece pela assistência. Ela coloca as mãos em cada borda do púlpito. Faíscas estalam em seus dedos.

"Acho que vocês dois deveriam ir embora", diz ela, com a voz fria e firme.

"Hã, digo, você provavelmente poderia lidar com isso sozinha. Mas eu preciso estar com você, pelo menos", diz Kellan. "Eu prometi que ajudaria a acabar com esta maldição."

"Você pode fazer isso lá de fora", diz Rowan. "Seria melhor se você não estivesse aqui."

Algo na voz dela faz os pelos da nuca de Kellan se arrepiarem. Sua língua gruda no céu da boca, e ele olha mais uma vez para a página diante de si. Em tinta marrom-avermelhada, uma caligrafia irregular soletra a verdade.

Tentativa 23. Ainda não consegui fazer ninguém dormir, exceto do jeito tradicional.

Ele não tem tempo para processar o que acabou de ler, pois quando olha para Rowan, ela está envolta em uma luz faiscante.

A visão de Kellan fica branca.

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"Kellan! Kellan, acorde! Não me faça pegar a água da prisão, eu juro que vou!"

... O quê?

Antes que ele consiga entender o que está acontecendo, ele é atingido no rosto por algo muito, muito frio; Ruby está parada diante dele com um balde vazio a seus pés.

"Você voltou?", diz ela.

Kellan limpa a garganta. A corda que mantinha suas mãos unidas já foi cortada, provavelmente obra da espada gélida de Ruby. Mas espere...

"Onde estamos? E como você conseguiu aquela espada de volta?"

"Dê uma olhada ao redor, herói. Syr Rowan nocauteou nós dois. Ela estava tentando lançar algum tipo de magia de sonho em você quando eu acordei, mas então..."

Os olhos de Kellan pousam em guardas adormecidos com o rosto no chão. O tilintar de metal e o ranger de madeira ecoam pelas escadas de pedra até sua pequena cela.

"...a cavalaria chegou. Ela saiu para lidar com isso, então peguei minha espada e acordei você."

Kellan se levanta. Ele levanta as correntes acima da cabeça e as solta no chão, exceto a mais curta, longa o suficiente apenas para envolver sua palma. "Ela realmente se voltou contra nós?"

"Ela achou que estava ajudando você", diz Ruby, franzindo a testa. "Ficava dizendo isso enquanto trabalhava. Que se ela acertasse o feitiço, você estaria agradecendo a ela pelo que ela estava fazendo."

"É, bem, aquele não foi um sonho muito bom", diz Kellan. Ele solta um suspiro. "Ela está lá em cima?"

"Acho que a bruxa também está", diz Ruby. "Alguém gritou o nome de Rowan, e com certeza soou sinistro."

"Então vamos subir", diz ele.

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No fundo de seu coração, Rowan Kenrith sabia que este sonho não poderia durar. Assim como nenhum treinamento a preparou para salvar sua família, nenhuma quantidade de pensamentos positivos poderia estender esse descanso até a eternidade. Seu tempo com Eriette, estudando a magia que salvaria Eldraine, sempre estivera fadado a acabar.

Mas ela esperava ter mais do que apenas algumas semanas.

Enquanto os cavaleiros de seu irmão irrompem pelos portões, faíscas estalam ao longo do antebraço de Rowan. Eriette, sentada em seu trono, esforça-se para controlar as dezenas de adormecidos entre as ruínas, fios violetas voando de suas mãos para os membros dos guerreiros. Rowan lutou apenas para manter as crianças adormecidas e tecer um sonho para elas. Eriette está fazendo isso para um exército inteiro.

A última coisa de que ela precisa são distrações, mas o que ela pode usar é ajuda. Ashiok havia deixado o Reino para tratar de negócios em outro lugar. Rowan é a única pessoa que resta a Eriette. Pelo menos até que Ashiok retorne.

Uma falange de cavaleiros rompe as portas. Para combatê-los, Eriette coloca seus sonhadores em campo, posicionados em duas fileiras diante do trono. Eriette pode ser superior a ela quando se trata de magia de sonho, mas Rowan teve lições de tática suficientes para saber que isso vai acabar mal. Duas fileiras não serão suficientes para conter uma falange daquele tamanho.

"Por ordem de Sua Majestade, o Rei Supremo de Eldraine, rendam-se!", grita uma mulher na vanguarda. Rowan cerra os olhos; a voz é familiar. Aquilo é um braço de madeira? Ah — o jato de fogo sobre as cabeças dos adormecidos confirma suas suspeitas. Imodane. É claro que alguém tão tolo pensaria que atirar fogo em adormecidos inocentes é uma boa ideia. Ela foi descuidada na montanha e é descuidada aqui.

Rowan se concentra nas faíscas em seu sangue, deixa-as crescer, deixa-as se acumularem. Ela libera toda essa energia em um raio temível direcionado aos pés de Imodane. A pedra se estilhaça; a fumaça sobe de uma cratera recém-formada no chão do castelo.

"Não há Rei Supremo em Eldraine", troveja ela. "Fujam e voltem para o pretendente, Imodane, ou eu os esmagarei contra as rochas."

"Você!", diz Imodane. "O que você está fazendo aqui?"

"Ahh, Rowan", diz Eriette do trono. "Você manterá os vermes longe de mim, criança?"

"Eles não ficarão em nosso caminho", promete Rowan. Enquanto ela sobe ao estrado elevado, avista seu irmão e sabe que — de um jeito ou de outro — tudo isso vai acabar hoje.

Arte de: Ryan Pancoast

Ele cavalga em seu cavalo branco atrás da vanguarda, com a espada desembainhada. A geada cobre suas ombreiras e braçadeiras. Apesar de cavalgar para a batalha, ele não teve o bom senso de colocar um elmo. Vê-lo... Vê-lo é ver todas as partes que ela menos gosta em si mesma externalizadas em outra pessoa.

Pior ainda quando ele cerra os olhos, quando chama com a voz cheia de descrença e dor: "Rowan? O que você está fazendo?"

Há um nó em sua garganta, uma dor indizível, quando seu irmão olha para ela desse jeito. Como se tivesse medo dela. Como se quisesse que ela fosse algo diferente do que é, que acordasse um dia e voltasse a ser a mulher que ele conhecia antes. Quando ele perceberá que a Rowan que ele conhecia está morta?

"Estou aprendendo como salvar o Reino", diz ela.

"Escute o que está dizendo. Trabalhando com bruxas? Amaldiçoando o Reino? Isso não é do seu feitio", diz ele. É isso que ele acha que um Rei Supremo deveria ser — um homem à beira das lágrimas montado em seu cavalo de guerra? "Por favor, venha para casa."

Ela quer que ele entenda. Ela quer tanto que ele entenda que ela nunca mais ficará bem.

Mas ele não entenderá.

Ela está avançando contra eles antes de saber o que mais fazer. Sua espada rebate escudos e quebra lanças. No auge do combate corpo a corpo, seu sangue canta. Aqui, cercada pelas pétalas de aço desabrochando, ela está livre de qualquer pensamento, exceto aquele que anima seus membros. Aparar, resposta; esquiva, explosão.

Quando ela alcança o irmão, já há sangue em sua armadura. Ela aponta a espada para ele, montado em seu cavalo, e o desafia a desmontar. "A casa se foi, Will!"

Olhos frios a estudam. Quando seus pés finalmente tocam o chão, seus ombros estão curvados com o peso de suas preocupações. Ele não saca nenhuma arma. "Não, não se foi. Hazel e Erec precisam de nós —"

Ele está falando com ela do mesmo jeito que falou com Imodane. Sua própria irmã. Ela não consegue suportar nem mais um segundo disso. "Nossos pais estão mortos, o Reino está em pedaços, e você está agindo como se falar sobre isso fosse ajudar. Não vai! Falar nunca vai ajudar!"

Um golpe ríspido em seu peito o convencerá a erguer a espada. Nem mesmo Will consegue competir com um argumento tão convincente — ele levanta sua própria lâmina para aparar. Não o ajuda muito. Rowan é mais forte do que ele. Ela sempre foi mais forte.

Sob uma barragem implacável de golpes, ele é empurrado para trás, passo a passo, com seus guerreiros se afastando para deixá-lo passar. Seja porque ele deu uma ordem ou porque eles a temem, os outros cavaleiros pouco fazem para deter Rowan.

A única coisa que consegue pará-la é um raio de gelo. Will consegue lançá-lo entre os golpes: ela não percebe que seus pés estão congelados no chão até tentar movê-los mais uma vez.

Rowan recupera o fôlego. Enquanto a batalha continua ao redor deles — cavaleiro contra sonhador, amigo contra amigo — seu irmão luta contra as lágrimas.

"Ro, sinto muito", diz ele. "Eu não ajudei você quando precisou."

Não é o que ela esperava dele. Há uma sensação aguda no canto de seus olhos, uma dor em seu peito. Uma flecha voa sobre sua cabeça, atingindo um sonhador atrás dela. Ela não pode olhar para Will por muito tempo, ou não conseguirá falar. Ela olha por cima do ombro em direção a Eriette.

Mas não é apenas Eriette que ela vê. O coração de Rowan afunda. As crianças devem ter se soltado. Pior que isso, elas estão atacando o trono. A garota de vermelho está balançando uma espada do dobro do seu tamanho contra Eriette; o garoto luta com um chicote de videira dourada.

Eriette pode ser uma bruxa poderosa, mas não é uma lutadora. Ela não consegue lidar com as crianças e animar os sonhadores ao mesmo tempo.

Rowan olha para Will novamente. Ele está franzindo a testa agora. "Você quer salvar ela?"

"Ela é nossa tia. Esta magia sempre esteve em nosso sangue, Will", diz Rowan. Ela se surpreende com o quão jovem sua voz soa. "Podemos usá-la para salvar Eldraine. Ninguém mais tem que sofrer, ninguém tem que morrer. Podemos mantê-los seguros."

Por um momento, ela confunde a mágoa na expressão dele com simpatia. É o momento mais longo de sua vida — uma corda de esperança amarrada em seu pescoço, uma caixa chutada para longe de seus pés.

"Eu não conheço mais você", diz ele.

Faíscas se aglutinam na ponta de seus dedos. Rowan atinge a vanguarda novamente, criando outra fenda no chão. Outra onda de raiva, outra onda de frustração, outra onda de mágoa. Repetidamente ela dispara contra seus antigos amigos infiéis. Todas essas pessoas que sabiam o quanto ela estava sofrendo e a deixaram apodrecer, todas essas pessoas que a viram sangrando e esfregaram sal na ferida — que conheçam o seu poder.

Somente quando a poeira de sua fúria baixa é que Rowan solta um suspiro.

E ali, onde ela esperava vê-los derrubados, ela vê um casulo de gelo. Picado, rachado e marcado, ele ainda resiste diante de seu ataque.

Will o dissipa com um aceno de mão. "Isso não vai funcionar", diz ele.

"Você não sabe disso!", responde Rowan. Ofegante e desesperada, ela não consegue se conter e avança contra ele. Seu braço armado terá sucesso onde sua magia falhou — ela tem certeza disso. Will jamais poderia se comparar a ela no campo de batalha.

Ela desfere um golpe nele, apenas para uma conhecida mão de madeira de lei agarrar sua lâmina. Imodane a empurra para trás e Rowan surpreende.

"Você não entende, não é, garota?", rosna Imodane. Perder uma arma parece não tê-la detido. Ela esmurra a palma de carne com seu punho de madeira. "Ele será aquele que reunificará o Reino. Até eu consigo ver isso agora."

"Não tenha tanta certeza."

Gelo contra a nuca; fumaça nos pulmões; uma névoa que ameaça carregá-la para algum lugar bonito e distante. Véus de escuridão se aglutinam na forma elegante de Ashiok diante do exército reunido.

Arte de: Raymond Swanland

Rowan não consegue evitar um sorriso sarcástico. Eriette pode ter tido problemas para controlar tantos ao mesmo tempo, mas para Ashiok é algo natural. Os sonhadores reunidos atacam com uma nova graça, esquivando-se de golpes iminentes e desferindo os seus próprios com precisão cruel.

"Will não é o único com amigos", Rowan responde a Imodane.

Eles não podem repelir isso facilmente. Ashiok, no centro, está cercado por todos os lados por seus sonhadores, e seus sonhadores estão felizes demais em defendê-lo. A falange deve se quebrar se quiserem atacar.

Imodane desfere um golpe poderoso na direção de Rowan. Ela não se incomoda em esquivar — seu nariz estala, o mundo ao seu redor gira, o gosto de cobre inunda sua boca. Vale a pena, se isso a levar para mais perto. Porque há algo que Rowan entende, algo que eles não sabem: os cavaleiros reunidos não podem vencer Ashiok. Tudo o que ela precisa fazer é aguentar o suficiente para que Eriette faça todos eles dormirem.

Rowan crava o pomo de sua espada no rosto de Imodane. Um momento de concentração é suficiente para canalizar faíscas através da armadura da cavaleira. Ela uiva, separando-se da luta para tentar arrancar sua armadura de placas, mas ela não é o único inimigo que Rowan enfrenta. Pelo menos uma dúzia de cavaleiros se reuniu para defender seu irmão enquanto os outros detêm os sonhadores.

Treze contra um.

Rowan gosta dessas chances.

"Todas estas pessoas estão aqui porque acreditam na mesma coisa em que nossos pais acreditavam: uma Eldraine unida. Você não pode simplesmente obrigar as pessoas a fazerem o que você quer!" diz Will.

"Você só está dizendo isso porque sempre foi fraco demais para fazer o que é necessário", responde Rowan. "A diplomacia teria detido Oko? Os Oriq?"

Três dos guardas de Will desabam ao redor dele, seus corpos juntando-se à pilha dos adormecidos. Um golpe cortante de um dos outros lhe dá outra chance. Rowan lança-se contra o golpe, desviando no último segundo. Com a distância reduzida, ela consegue golpear a têmpora do cavaleiro com o pomo da espada. Sangue cobre seus nós dos dedos enquanto seu oponente desmorona.

No meio do caminho.

À distância, ela avista um lampejo dourado em meio à fumaça de Ashiok. O garoto de antes, balançando algum tipo de corrente dourada. Pequeno como é, ele conseguiu deslizar entre as fileiras.

Arte por: Anna Steinbauer

De que adiantará isso? Ele é apenas um garoto contra Ashiok — o que ele poderia fazer? Os arcos dourados de seu chicote improvisado podem ser chamativos, mas não o salvarão. Conversar também não o ajudaria. Ela volta sua atenção para Will.

"Se você tivesse conversado com os ferequianos, Will, você acha que nossos pais estariam vivos agora?" Ela se lança contra Will mais uma vez.

Por anos eles treinaram, por anos eles conheceram a mente um do outro. Ela conhece cada truque que ele tem, mas ele também conhece os dela. E com as costas contra a parede, ele está desesperado. Gelando o ar ao redor dela, conjurando escudos no último segundo, congelando o chão para desequilibrá-la. "O poder importa tanto assim para você?"

"O poder é a única coisa que importa", diz Rowan. Ela atinge o cotovelo dele com um corte; ele deixa cair a espada. Uma lança vem em sua direção, mas um dos sonhadores se lança em seu caminho. O contra-ataque deles — um martelo no joelho — faz com que seu assassino caia também. "Você vê agora? Traga quantas pessoas quiser, Will. Não importará. Olhe ao seu redor, seu exército caiu no sono."

Will, seguidor como é, faz o que lhe é dito. Rowan o observa enquanto ele percebe que não há como escapar deles. Ele lança um último e desesperançoso raio de gelo, que ela evita facilmente.

"Acabou."

Mas então Will começa a sorrir. "Qual era a frase? 'Não tenha tanta certeza'?"

É o truque mais velho que existe, mas ela cai nele, virando-se para olhar para trás.

O raio atingiu seu verdadeiro alvo: o peito de Ashiok.

O garoto não estava tentando derrotar Ashiok de jeito nenhum. Rowan percebe isso agora. Ele só queria prendê-los no lugar por tempo suficiente para que Will desferisse um golpe. Um golpe potente, aliás; Rowan raramente tinha visto Will colocar tanto de si mesmo em um raio.

Ashiok solta um uivo de dor enquanto o gelo se espalha por seu corpo. A fumaça os engole e, então, eles desaparecem. Eles ainda tinham sua centelha, Rowan percebe subitamente, com uma sensação de sobressalto.

A fumaça se dissipa bem a tempo de ver a garota pressionar sua lâmina contra a garganta de Eriette.

O coração de Rowan salta à garganta.

Neste momento de aflição, Eriette permanece calma e composta. Através das ruínas da sala do trono, seus olhos encontram os de Rowan. Um único fio da maldição — mal o suficiente para ser notado — os une.

Vá embora deste lugar, diz Eriette para ela. Quando for o momento certo, nos encontraremos novamente.

Rowan dá um passo em direção a ela. Mas não posso perder mais ninguém.

Você não está perdendo ninguém. Eles não vão me matar, querida. Eles são moles demais. Vamos aguardar o nosso momento.

O fio se rompe. Nos recessos de sua mente, ela está sozinha, observando mais uma vez alguém de quem gosta ser mantido sob a ponta de uma espada.

Se ela não seguir o conselho de Eriette, seu irmão certamente a capturará. Ele a prenderá, e haverá um desfile interminável de curandeiros e tolos de coração mole para falar com ela. Para tentar entendê-la. Enquanto isso, Eldraine continuará fragmentada, pois embora Will tenha reunido aqui um exército de muitas cores, ele não reuniu todas. E se ela finalmente ceder, se fingir que está tudo bem, ele continuará como Grande Rei e ela...

Ela sempre será a mulher que se rebelou. Pior, ela sempre será a mulher que ele graciosamente perdoou.

Não — não há mais volta agora, não há retorno para casa.

Ela ainda tem o suficiente para mais uma explosão.

Rowan Kenrith respira fundo. Como fizera em Strixhaven, ela deixa seu poder crepitar através de si. A luz surge.

"Rowan!" grita Will.

Ele tenta alcançá-la também. Mas ele ainda tem medo dela, e esse é o problema.

É difícil controlar seu poder quando há tanto dele. Ainda assim, ela precisa tentar. Franzindo as sobrancelhas, cerrando os dentes, ela torce a energia enquanto ela a deixa — em vez de mirar para fora, ela a mira toda para baixo.

Um estrondo mais alto que a queda de um gigante.

Rowan está no ar.

Daqui de cima, ela pode ver os fios da maldição se unindo, uma teia de aranha centrada no castelo.

O que Royse lhe dissera? Se você não reservar um tempo para o descanso, ele virá até você quando você menos esperar.

O mesmo vale para Eldraine. Quantos golpes eles já suportaram até agora? Quantos sonhos despedaçados? Se eles quiserem ser fortes novamente — se quiserem ser unificados — eles precisam forjar esses sonhos novamente.

Eles precisam descansar.

Assim como Rowan.

Um dia, ela trará esse sono abençoado para o resto de Eldraine.

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Depois, há muito para Kellan processar.

O Grande Rei Kenrith chama ele e Ruby à parte. Ele lhes diz que nunca conheceu crianças mais corajosas do que eles, que estão convidados a vir ao palácio sempre que quiserem, que serão bem-vindos como membros da família. Mas seus olhos são nuvens de tempestade quando diz tudo isso, e ele não consegue parar de olhar para o horizonte. Kellan acha que ele está procurando por Rowan. Se fosse ele — se aquela fosse a sua irmã que tivesse feito tudo aquilo — era isso o que Kellanaria. Então ele não culpa o Rei Kenrith por estar um pouco distante. Ele deve estar sofrendo.

Ruby aceita a oferta, com a condição de poder trazer seu irmão. O sorriso do rei fraqueja. Ele concorda. Sim, ele adoraria receber a visita dela e de seu irmão, ambos.

Enquanto fazem seus planos, Kellan escapa. Há algo mais que ele precisa fazer. Sua amiga merece todos os prêmios que pudesse receber. Enfrentar uma bruxa com uma espada de gelo? Esse tipo de coisa soava bem em uma história. Muro de Orla ficará sem capas vermelhas em breve. Deixe-a festejar; o que ele tem que fazer apenas a afastaria da glória que ela merece.

Do lado de fora do Castelo de Ardenvale, ele entra no Mundo das Fadas.

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Uma fazenda sonolenta fora de uma aldeia ainda mais sonolenta. Um lugar que conhece a luta apenas contra o clima e o solo. Aqui, entre os cercados e pastagens de Orrinshire, não se fala em heróis.

O silêncio soa estranho nos ouvidos de Kellan enquanto ele caminha pelo caminho batido em direção à fazenda de sua família. Ele nunca foi tão grato por balidos distantes e machados cortando lenha. Depois de tudo o que passou, o silêncio lhe serve como um casaco encolhido. Todo este lugar serve.

Quando ele passa pelos garotos Cotter, eles o encaram do mesmo jeito. O terrível é que parte dele ainda os teme, mesmo sabendo que não deveria. Mas ele sabe que é forte o suficiente agora. Ele se mantém mais ereto. Ele passa por eles e, quando não fazem nada para prejudicá-lo, ele solta um suspiro.

Hex é o primeiro de sua família a cumprimentá-lo. Saltando pelas fileiras de nabos perfeitamente plantados, ele vai, deixando um rastro de baba, uivando seu uivo familiar. Quando Hex lambe sua bochecha, Kellan solta um pequeno suspiro de alívio. Não importa por onde ele tenha andado ou o que tenha descoberto sobre si mesmo, Hex ainda sabe quem ele é.

Kellan coloca o cachorro nos ombros enquanto sobe a colina. Hex não para de latir, é claro, então não demora muito para que sua família ouça que algo está acontecendo. Ronald surge de trás da casa da fazenda, com um machado no ombro. Ele o deixa cair ao avistar Kellan. "Querida! Querida, ele voltou, nosso garoto voltou!" ele grita.

Ronald corre até ele, e Kellan está tão envolto nos braços de seu padrasto que não percebe a chegada de sua mãe até que ela abraça os dois. Girando nos campos, o balido suave das ovelhas em seus ouvidos e o leve gosto de terra em sua língua, a voz de sua mãe e o aperto forte de seu padrasto — sim, depois de tudo isso, ele está finalmente em casa.

Eles o recebem em casa. Insistem nisso. Lágrimas de alegria escorrem pelo rosto de sua mãe. Ela lhe apresenta um casaco que fez para ele. Há quanto tempo ela estava fiando para isso? Como ela poderia ter terminado no tempo em que ele esteve fora? Pois cada fio é vibrante e belo, dos azuis mais profundos aos amarelos mais brilhantes. Onde o ouro é necessário, ele fica chocado ao encontrar o próprio fio de ouro. As cores e o material sozinhos empobreceriam a aldeia — mas os detalhes empobreceriam até mesmo uma cidade como Muro de Orla. Bordados por toda parte estão alces brincando entre os olmos e faias que cercam Orrinshire. Ao longo dos punhos há prímulas em flor; abaixo de um bolso, uma garota senta-se diante de um lago de águas límpidas, seu reflexo olhando de volta para ela. E o forro! Aqui ele vê a garota novamente, seguindo um homem cuja pele é riscada de azul.

Kellan fica de queixo caído. Ele abraça sua mãe novamente. "É tão lindo, mãe, mas não posso aceitar. Não posso usar isso lá fora! Pode estragar!"

Ela ri, afastando o cabelo do rosto dele. "É atencioso da sua parte dizer isso, Kellan, mas eu o encantei."

Kellan volta-se para o casaco novamente. He pressiona os dedos no tecido, como se a magia fosse algo que pudesse ser sentido como as ranhuras de um instrumento. "Sério?"

"Bem, sua mãe não passou cinco anos como aprendiz de bruxa à toa", ela diz com um sorriso. "Ronald, você nos prepara um chá?"

"Claro. Mas primeiro terei que ir buscá-lo nos Brown, ouvi dizer que Gretchen acabou de receber algo novo..."

Ele já está vestindo seu próprio casaco — feito de forma muito menos fantasiosa — e saindo pela porta. Quando ela se fecha atrás dele, Kellan levanta uma sobrancelha para sua mãe. "Tem alguma coisa acontecendo."

"Você ficou mais esperto, não ficou?" diz sua mãe. She olha para o casaco.

Kellan senta-se à mesa de jantar à frente dela. He não se sente muito mais esperto, mas acha que tem uma ideia do que está acontecendo. Ainda assim, ele quer que ela se sinta confortável. "O que você queria me contar?"

"Sobre seu pai e eu", diz ela. "Seu pai biológico. Tenho certeza de que o Senhor das Fadas lhe contou o que sabem sobre ele, mas pensei que você pudesse conhecê-lo como eu conheci."

Kellan sorri. Seu coração também está batendo forte. "O Senhor das Fadas não me contou nada sobre ele, na verdade."

"Não contou? Mas sua missão—"

"Eu disse a ele que queria voltar para casa, para ouvir a história de você", diz Kellan. "Sempre que você achasse que eu estivesse pronto."

O silêncio perdura enquanto lágrimas brotam nos olhos de sua mãe. Ela aperta a mão dele, e ele aperta a dela e, quando ela está pronta, começa.

"Conheci seu pai durante meu treinamento", diz ela. "Eu estava na floresta, colhendo beladona, quando encontrei um homem deitado entre as flores como se elas não representassem perigo algum. Quando ele me convidou para sentar com ele, achei que estivesse brincando, mas ele se ofereceu para me dar toda a beladona que eu quisesse em troca de apenas uma conversa. Sabendo que ele era um feérico, fiz com que prometesse que seria apenas uma conversa e, com isso... eu falei com ele. Ele me disse que seu nome era Oko e que tinha acabado de chegar a Eldraine. Que ele não era de nenhum dos Reinos que eu já tinha visto. Ele queria saber mais sobre o lugar, e vindo de uma garota bonita era ainda melhor."

O homem riscado de azul no forro do casaco chama sua atenção novamente. Oko. Seu pai. Um homem entre as flores de beladona.

Sua mãe suspira com um toque de sonho. "Foi a primeira vez que alguém disse que eu era bonita. E achei a ideia de Reinos além do nosso tão emocionante que, naturalmente, fiz a ele mil perguntas. Graciosamente, ele as respondeu, desde que eu lhe contasse algo sobre Eldraine em troca. Por horas ficamos sentados assim, conversando entre as flores, até que... percebemos que precisaríamos nos encontrar novamente."

"Outro Reino... Ele disse como se chamava?"

"Ele disse, embora, para ser honesta, o nome tenha me escapado há muito tempo", diz sua mãe. "Mas ele disse que era uma terra onde os feéricos governavam supremos. Ele achava a ideia de que os humanos devessem desafiá-los muito divertida e lamentava não poder confrontar o Senhor Talion diretamente. Claro, todos os rapazes falam assim, e nós dois éramos jovens então."

Ela se recosta na cadeira.

"Nos anos seguintes, eu ouvia sua voz vinda de corvos, ou árvores, ou às vezes até de produtos de panificação, e eu sabia que significava encontrá-lo no vale das beladonas. Ele vinha a mim em muitas formas e me dizia muitas coisas. Mostrava-me muitas coisas. Sem a ajuda de seu pai, eu nunca teria escapado de minha mestra — ele me fez sentir tão audaciosa e inteligente.

"Por um tempo, foi maravilhoso. Nós dois íamos aonde queríamos e fazíamos o que nos agradasse. Aprendi mais sobre magia com ele do que jamais aprendi com ela. Ele sussurrava para mim os segredos da terra e me prometia um trono.

"O problema começou depois. Embora eu tivesse sido libertada, ninguém na cidade queria saber de mim. Uma vez bruxa, sempre bruxa, dizia o ditado.

"Seu pai... ficou muito chateado com isso", diz sua mãe. "Parte de mim achava charmoso que um homem se importasse tanto comigo. Eu queria ir embora com ele, mas ele não podia me levar. E ficar aqui estava desgastando ele. Eventualmente, ele... machucou pessoas que tinham sido rudes comigo, e eu percebi que não podíamos continuar como estávamos. Não importava o quanto eu o amasse.

"Eu não nasci para ser rainha, entende? Depois de toda aquela luta, eu queria paz — mas ele queria arrasar este lugar por me ofender."

"Ele visitou novamente há três anos. Eu o ouvi me chamando enquanto eu fiava uma noite. E embora a garota dentro de mim quisesse ir até ele, a mulher em que me tornei sabia do que eu estaria abrindo mão se o fizesse. Sou muito mais feliz aqui com você."

Kellan ouve, compenetrado demais para interromper, observando o casaco repetidamente.

"Você poderia me contar mais sobre ele?" diz Kellan. "Sobre como ele era."

O sorriso de sua mãe é apenas um pouco triste. "Claro. O que você quiser saber."

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Ele não consegue dormir. Há muita história dentro de sua cabeça. Muitos rostos de seu pai olhando de volta para ele. Ele se pergunta quantas vezes já o viu. A mãe disse que ele gostava de mudar de forma, então talvez já tenham se conhecido.

Mas, se for assim, por que seu pai não se apresentou?

Essa é a pergunta que o impede de descansar, como uma ferradura mal colocada impede uma montaria de correr. Dói. A pergunta não para de vir a ele: P or que você não falou comigo? Eu não sou bom o suficiente?

Ele não tinha sido corajoso o suficiente para perguntar à sua mãe.

Com pouca utilidade para o sono, ele decide caminhar. Talvez isso afaste o pensamento de sua cabeça traidora. Talvez doa menos. Ele desce, envolvendo-se em seu belo casaco novo, saindo para a escuridão e as terras selvagens.

Elas costumavam assustá-lo. Ele agora sabe melhor. A floresta nunca o trairá, enquanto seu sangue cheirar a pinheiro.

Hex o segue. Ao contrário de outras noites, Kellan não consegue pensar em nada para dizer ao seu velho amigo. Falar seria piorar as coisas; se ele abrir a boca, tem certeza de que não terá nada além de perguntas. E ele não deveria fazer perguntas a um velho sabujo.

Mas Hex tem suas próprias maneiras de ajudar. Com apenas cinco minutos, ele sai em disparada, como se tivesse sentido um cheiro. Kellan pouco pode fazer exceto correr atrás dele. Sua respiração forma uma névoa contra o frio da noite; o luar brinca em sua pele.

Sobre os galhos, passando por um bosque de teixos que pinicam sua pele, ele finalmente alcança Hex. Ele late uma vez e assume sua postura de apontar, mirando diretamente para... um portal?

Deve ser isso o que é — uma série rodopiante de triângulos entrelaçados, algo como um espelho nublado, parado livremente sob os galhos balançantes das árvores. Não se parece em nada com os portais para o reino de Talion. O outro lado não se parece em nada com Eldraine.

O fôlego de Kellan para em seu peito. Troyan lhe falara sobre outros Reinos. Sua mãe também, repetindo as coisas que seu pai lhe contara sobre eles.

E se este for o jeito dele de se aproximar? E se for um teste? Seu pai vivia em algum lugar que não Eldraine. E se ele morar lá, do outro lado? Kellan poderia perguntar a ele por que demorou tanto sem nunca se encontrarem. Talvez saibam dele por lá.

Ele dá um passo à frente.

Será apenas uma olhada rápida. E ele se lembrará do caminho por onde entrou. Vai ficar tudo bem, certo? Ele não está realmente saindo de casa, está apenas fazendo uma viagem a algum lugar. Não é diferente de ir ao mercado.

Ele não está saindo de casa. Ele voltará logo.

Kellan acaricia Hex e atravessa o portal.

Arte por: Volkan Baga

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Acorde. Nem tudo está perdido. Eu retornei por você.

A voz é fria, familiar. Eriette se pergunta por que demorou tanto para ouvi-la mais uma vez. Quando abre os olhos, a cela da prisão a encara de volta, mas Ashiok também. A fumaça sai de seus mantos evanescentes, apesar da falta de vento na sala.

"O que te demorou tanto?" ela pergunta. Suas correntes chacoalham quando ela se levanta. Se os guardas lá fora ouvem, nada dizem, nem sequer se movem. Sem dúvida, estão sonhando com algo muito mais agradável do que vigiá-la.

"Preparativos precisavam ser feitos", responde Ashiok.

"Onde está Rowan?" ela pergunta. "Esperando lá fora?"

Os lábios de Ashiok se estreitam. "Ela ainda não está pronta para o que deve ser feito."

Eriette franze a testa. "Se você der a ela uma chance de aprender, tenho certeza de que—"

"A oportunidade nos chama em uma nova direção. Uma bem longe daqui. Você aprenderá muito e, se desejar, poderá retornar para instruí-la. Até lá, você terá uma multidão de servos para cuidar de seu novo reino."

Bem. Isso certamente acalmou as coisas. Rowan ficaria bem sozinha por um tempo — e se Eriette garantisse novas terras para elas, melhor ainda. Ela levanta suas mãos acorrentadas.

A mão de Ashiok paira sobre os grilhões. "Você estará longe daqui, Eriette. Muito longe."

"Longe de uma cela de prisão? Querida, isso é uma coisa boa", diz ela.

Eles não riem. Eles nunca riem.

A escuridão cai sobre a cela. Os grilhões caem no chão de pedra. Pela manhã, quando revistarem a cela, ela terá partido.